Poema incompleto

a coisa que mais dói
não é a hostilidade
que a vida impõe
mas sua indiferença
implacável sugerida
certas vezes como um
tapa ou perseguição

não conseguimos aceitar
nossos limites tão frágeis
dentro de nossas fronteiras
o limiar da vida
o limite da morte
ou daquilo que pode nos mudar

mudamos na adversidade
mudamos na porrada
na terna indiferença apenas
caímos diante a vasta escuridão
do Cosmo

e não teremos significado
não teremos a realização
da luz
não quereremos a própria
ideia do entusiasmo
da raridade que é a combinação
entre duas pessoas
algo cada vez mais raro
em meio a tanta efemeridade
em meio a tantos ocasos
em acasos fodidos
de tanta percepção
de tanta visão

Horácio Pontes

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46.

LEMBRANÇAS DE BOLSO

Mais uma vez o fracasso toma conta de mim, a incapacidade de acreditar nas pessoas por quem algum apreço tivera. Tenho que me escorar na noite, nas ruas cheias de gente – e solitário! – e sentir o bater de dentro pra fora, a violência cretina e súbita de ser estranho a um mundo que tenta se organizar da pior maneira. Não reclamo das coisas naturais, reclamo do homem, que afeta tão poderosamente o curso das coisas e que me traz a sensação de fracasso. Sinto por todas as pessoas falando de empregos, fofocas e jornais, de tudo que não faz parte do que entendo como abrir caminhos.

Os homens falam com a inconsciência, organizam-se em meio ao processo de uma sociedade absolutamente inferior ao que penso, ou até mesmo ao que empregam as abelhas, os cupins ou as formigas. Deixando de lado os sistemas, a existência ou sabe lá mais o quê, não se revela nada a não ser o fim das coisas, da amizade trocada por um sistema falível. Sinto a derrota nas minhas palavras, sinto deus me castigar mais uma vez, o mesmo deus que não acredito, pois o homem não deveria se divisar na inteligência, mas sim em algo maior que isso, pois alguns se acham superiores e não são. A beleza não é para quem lê, mas para quem compreende o erro, o que atende a certos fatos e não muda sua essência, que não pega para si o broche da falsa capacidade, da falsa inteligência ou da superioridade. Isso não passa de um elemento de imperfeição. Tendo a ciência de tudo isso, diante do mal no qual estamos chafurdados, da bondade e da justiça que deus tanto pregou, não posso aceitar isso senão sendo algo do próprio homem – essa semente esquecida e jogada na existência! – em sua arrogância, nos que erram as contas e não se dão conta disso, nos que estragam a amizade secular, o amor, a arte, a sensibilidade e até mesmo a poesia. Não aceito nada que seja superior sem que haja um fundamento. Acredito apenas na capacidade do homem destruir as coisas, nos pormenores do que chamo “ajustamento do universo”, um lapso ou não-lapso das razões sem que nos seja dada a visão realmente verdadeira das coisas fora do sistema. A amizade, o amor, tudo isso é um ritmo, um verso construído dentro de uma imperfeição que pode ser bela. Só me resta o fracasso ao fim de algo que jurava eterno como certas amizades, só espero não perder mais ainda. Também não quero que pensem que minha falta de fé decorre apenas disso ou da dor de barriga que temos recorrentemente. O erro consiste em não enxergar os atos, não ter o argumento necessário, como pessoa inteligente que nos julgamos, para consertar as coisas, dar a distinção do que é certo e tentar ser justo. Não posso negar que o fracasso na vida é inevitável, mas o fracasso não deveria ser aceito. Confesso que o problema realmente continua e é cada vez mais forte em todos nós, mas é cada vez mais forte porque em todos nós subsiste nossa capacidade de não enxergar as coisas.

Roberto Lorembrant
Do livro O Girassol Mecânico

Ele não!

Dor de atráves

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão
em mensagens
e-mails
e bilhetes que amassaremos e
que jogaremos em qualquer lugar
e você que amou desde a primeira
mensagem
sua primeira obra de arte
seu livro
sua música
sua pintura
sua dança
e que nunca soube
de fato seu nome
você sempre correu
de volta pra pegar o bilhete
amassado
e não sabia que escrevia
apenas sobre si mesmo
apenas sobre si mesma

e na denúncia precisamos
nos proteger de nós mesmos
e daquilo que não entendemos
e surgirá disso o corte
que deixará os olhos a ermo
registrando mais uma vez
e sempre mais uma vez
a dor e a solidão
de escrever e não ter a resposta
desnudada

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão

Horácio Pontes

Constatação

a vida das pessoas
que se integram pouco
com seus reais sentimentos

será que o espírito é
realmente livre nessas horas?

a música aquém do instrumento
a razão aquém do ser
o impulso
a manifestação

e o resultado óbvio:
o arremate da vida

a luz que sobrevive
ao apagamento
sua imortalidade mortal

o belo que se perde
e pelo qual nos
apaixonamos

o que mais amamos

Horácio Pontes

Choldra

os materialistas
os liberais que não são liberais
os burgueses
os falsificadores
os golpistas
os cínicos
os vendidos
os que arrancam flores
os patrões
os desavisados
os isentos
os destruidores
os imberbes
os caguetas
os criadores do absurdo

e constatação perene
de que tudo vai se degenerar

Horácio Pontes

Poema sem nome [121]

e para que serve o amor?
todos o veneram inerte
e quando pensamos tocá-lo
e aparece a primeira rachadura
nessa pedra gigante
vem a pergunta:
de que serve o amor
se não o possuímos?

e teremos mais uma coisa
uma coisa qualquer
para que alguém consiga
usar para ganhar seus créditos
com seu peso
sua forma
e seu objetivo

e capitalizaremos o amor
mesmo que isso não envolva
valores de fato
o amor será um jogo
em que a inocência não
fará mais parte
porque a distância do que
pode ser amor
e do que pode ser amor

é a mesma pergunta
o mesmo questionamento
do que para que serve

e para que serve o amor?
simplesmente não serve
para quem não sabe

e é só isso

Horácio Pontes

Alcance

a memória ao alcance
da íris
seus estilhaços congelados
onde alguém fechou a porta
e não voltou
ao longe
talvez ao acaso
a lágrima

e entre o que você era até ali
e o depois é um objeto da chuva
com a íris
e suas flores
que disparam a dor
sua memória detalhada
do tempo que se abre
agora

sim
agora

no agosto
dos vergalhões
enferrujados

Horácio Pontes

Lugar

existiu um lugar
que antes
estava ao alcance
da visão

era algo onde
os barcos aos poucos
iam sumindo

e suas chaminés
fincavam seu fumo
no ar e o sonho
era turvado por
essa imagem

a lua batida no oceano
era como um mármore
afiando a água

e deveria existir
do outro lado
esse lugar
ao alcance
de nós mesmos

um único ponto
onde diariamente
atracamos a vida
e só isso

Horácio Pontes

Estudo [1]

na ínfima ideia
o teu nome em brasa
e o inverno exala um
cheiro que beira ao ridículo
de suas flores ainda fechadas
onde a vida em essência
absurda a morte

a brasa onde
a morte intumesce

Horácio Pontes

Nihil [20]

e alguém te diz que o entardecer foi abolido
por tempo indeterminado
sim
eles que controlam a vida
e te dizem que o amor e a empatia
serão exilados para outro lugar
mas que não se preocupe com isso
pois a tecnologia te porá ciente dos
futuros acontecimentos
e te dirão para consumir
porque só consumindo você
alcançará a liberdade
a liberdade presa na cela do cartão
e virá a dúvida
que você enfim venderá
para que a palavra seja esvaziada
de toda anamnese e cachimônia
então o objetivo será cumprido

a desmemoria do que realmente somos
prontos para morremos por porra nenhuma

Horácio Pontes

Poema sem nome [120]

a vida está morta
e a culpa não é só minha
porque dentro de mim
da melhor forma que pude
tentei mantê-la intacta
longe da realidade
mesmo que uma seja a outra
e a outra seja uma

o que importa no fim?
nada
e não adianta
porque o desespero dessa
causa
– que é viver –
imita o impossível
imita o incerto que é
ser um ser
com sentimentos
e com pensamentos
que caem em contradição
quando a boca abre e produz
a voz que nos calará

nós mesmos
NÓS MESMOS

e extinguiremos aquilo
que nunca existiu de fato
a estrada já esburacada
que é a vida morta

morta vida
[eu]

Horácio Pontes