Vento

o vento preenche as frestas
preenche o vazio infinito
geme na irregularidade
e se faz perceber
o vidro balança
a cicatriz abre e vem
a lembrança murcha
de um tempo que passou
e que ainda machuca

o vento que muda a forma
de qualquer coisa que te encante
numa nuvem
daqueles que brincam
de formas e fazem suas
sinfonias de silêncio
no vento que resgata
a nostalgia embalsamada
os estertores do que somos

o vento preenche as frestas
preenche o vazio infinito
faz seu barulho ao chegar em algo
e rodopia nossa infância de cabeça
para baixo
na verdade para qualquer lado
e isso não importa
o que importa é como ele nos
moldará
nossos rostos
nossas fuligens
nossos abismos
que não são apenas mal revelados
mas insondáveis
igual o vento que
nos separa

Horácio Pontes

Imagem: Nick Kenrick

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Dia de chuva

hoje é um daqueles dias
que deveria ter chovido
lavando as ruas
e também aqueles que
se arriscam nela
a chuva que pensa
e nos faz sentir a necessidade
de escrever
uma carta
um poema
um aforismo
qualquer coisa
que sabemos
e que perecerá
na sombra do amor

sempre me acusaram
de não saber me expressar
e todos estavam e estão certos
eu não sei dizer o amor
mas sei escrever em qualquer
lugar sobre o que é isso
e de suas formas
sua arquitetura num mundo
que chamamos a chuva
onde me custa a fala
falar a palavra que atormenta
a palavra
que naufraga seu sentido
nas cartas
nos poemas
e até nos aforismos

o silêncio entre
palavra escrita
e a palavra dita
é onde a chuva
faz seu papel
de coração lavado

Horácio Pontes

Imagem: Abdalla Mohamed Abdi

Saber

não saber o amor
não conhecer o amor
mas saber ser possível
sentir sem sentir
as coisas que não são suas

o acaso de deus
que descobre o caminho
ou no avião que entra na nuvem
e aparece em algum outro lado
que não te importa mais

não saber a fome e aprender
olhando as fotos
os vídeos
os documentários
mas não saber seu cheiro
e nem sua consistência
da visão de fato
o vídeo é uma parábola
da visão

deus é uma parábola
do medo
onde o seu amanhã
não pertence a você
mas ao pedaço de celulose
com um número estampado
número que silencia
os que tem o gosto de metal
na boca
que dependem disso para que
seus corações continuem batendo

e vem a compreensão das coisas
que nunca vimos e que nunca sentimos
de como as palavras e os sentimentos
envelhecem as pessoas

amor
deus
fome
tudo é uma redução
da palavra
de não precisar nenhuma

poemas não precisam
de palavras

Horácio Pontes

Imagem: Robert Mishovski

Dor

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a esperança fracassa
a dor não
o amor fracassa
a dor não
a esperança na dor
fracassa
a dor não

a dor na esperança
é dos iludidos
os iludidos da dor

Horácio Pontes

Imagens: Celeste Pascual

Oração inalcançável

uma oração inalcançável
é dita com pressa
presa dentro de nós
dia após dia

por muito tempo
não sabemos seu porquê
e nem o seu por que
mas ela consome
nossas vidas
macerando cada segundo
cada hora
sempre lá

seu significado estrangulado
seu embaralhamento
seu disfarce de algo bom
sua ferida em forma de preâmbulo
sufocando sonhos
e capturando a liberdade

ontem oração
hoje uma voz rouca
amanhã apenas uma palavra
ecos dentro de um buraco
mal tapado

memórias na pressa
memórias presas
dia após dia

Horácio Pontes

Imagem: Kevin O’Mara

Todo dia é o último dia

lá fora faz tempo bom
mas não é algo que
faça ter vontade de ver
porque os homens
porque as mulheres
todos gorjeiam cegos
à sua imagem
e cantam felizes
qualquer melodia
barata

eu não sei dessas coisas
sei apenas a melodia que
crio dentro de mim
com seu vento que me
machuca sempre como
se fosse o último

todo dia é o último dia

e enquanto todos cantam
eu só sei gritar
mas eu não grito senão
dentro de meu corpo
que acena pra realidade
que dança comigo
mesmo eu não sabendo dançar
e tropeço em meus sonhos
mais doentes

lá fora faz tempo bom
onde me calço de último
último vento

Horácio Pontes

Imagem: Alistair Paterson

 

Poema para Perséfone [10]

queria muito
Perséfone
queria muito
repartir o que sinto
dos dias
das semanas
dos anos
das décadas
mas assim como você
sabe e eu também sei
dói
dói muito
descobrir a confusão
dos nomes
dos signos
das pátrias
dos sentimentos
que estão mergulhados
nos livros que tanto
amamos e que usamos
para conversar o diálogo
que só é respondido aqui
e que não precisa ter sentido
o papel pólen
a capa dura
as dedicatórias
a anotação feita
com lápis e uma frase
que faremos entender
na resposta do poema
de como remontaremos
as fotos deixadas na caixa
de sapatos que nunca existiu

o momento fino e consistente
de acordar cedo
e repartir a angústia
de ainda estar
na dor dos dias

[a resposta do
que não sabemos]

Horácio Pontes

Imagem: Michael Feist

Dissolvição

a dissolvição no escuro
de nós mesmos
a sua não-substância
de concreto e distância
os mártires de deus
que se unem igual
manadas expressas
no deserto em busca de água
sua aura
sua vida dentro de uma caixa
que perdi no meio do caminho
o escuro que badala os
ganchos que arrasam
e perfuram nossas peles
tão frágeis
a sombra que escorre
da pele ferida
o calcanhar que fica pesado
ao andar
a aspereza do chão que pisamos
do deserto na procura de algo
e que nem precisa ser deus
ou seus deuses
sua não-substância
de concreto e distância
e aspereza
e choro
sua tristeza que
se funde com o muro
nasce uma cicatriz
que se suicida contra
o não-olhar

a não-vida
a não-alguma-coisa
qualquer coisa
de amanhã

Horácio Pontes

Imagem: Lima Pix

Nihil [18]

eu vi todos que amei morrerem
eu sobrevivi ao tempo de todos
uns destruídos pela loucura
pela histeria
pela tristeza
outros por apontarem suas armas
para minha cabeça
mas quem morre nesse ato
não faz a menor diferença

eu vi todos morrerem lentamente
nas paredes de minha vida
e eu em minha sobrenatural escuridão
deixei muitos partirem
não os julguei
e também sofri por outros que se foram
copiosamente
flutuando no teto fodido
dos quartos em fui para dormir
mas não consegui
o desnudamento do que sou
e do que eles foram
dos que significam
dos que significaram
seus olhos agora frios
decompostos
estudiosos da morte
que foram expulsos da vida
por serem diferentes demais
por serem marginalizados demais
por serem humanos demais
por se refugiarem
– igual a mim –
nesses mesmos quartos de tetos
que levam ao infinito
o barulho dos canos
o barulho do cachorro que corre
e que risca o teto com seu barulho
tão particular

morrer ou flagelar
não faz diferença
aos sobreviventes
que ainda estão aqui

Horácio Pontes

Imagem: Shena Tschofen

Todo dia

todo dia ouço uma música
para sobreviver
todo dia
mesmo com a vida que corre
esponjosa com seus brindes
em copos sujos de mercúrio
sou sua tempestade seca
seu som do papel sendo rasgado
é como uma sinfonia aos meus ouvidos
o último movimento do terceiro concerto
para piano de Rachmaninov
é como sobrevivo
a água espelhada
que antevê a sobrevivência
do reino
do meu reino dentro dos copos
de mercúrio
sua matéria cancerígena
a loucura enclausurada
dos sentimentos de vapor
de um deus ensandecido
que adivinha no meu desvio
o meu ritual de delírio
seu sol menor
sua outra manhã
o meu ódio
seu banquete de loucura
a carência da música
para morrer
todo dia

a pele grita
igual papel rasgado

Horácio Pontes

Imagem: Jim Surkamp

Eles dizem

eu não pretendo ser imortal
eu não pretendo ser poeta
eu não pretendo ser algo
mas seu deus tentará dizer
grandes palavras
sopradas lá de cima
desse grande telefone sem fio
em que se conjugam as verdadeiras
verdades
verdades que saem de sentimentos
que dizemos nobres
ou melhor
que eles dizem ser nobres

ELES DIZEM

e nós
os animais das águas rasas
caminhamos para a compreensão
forçada e transfigurada de salvação
mas mesmo quando eu cri
ainda sentia a solidão
sensivelmente
porque o rosto da solidão
é minha eterna saudade

ELES NÃO DIZEM

eu não pretendo ser imortal
eu não pretendo ser poeta
eu não pretendo ser algo
e restam os homens
os homens do telefone sem fio
com suas drogas prontas para
serem vendidas
apressados
egoístas
inúteis
com o manual de como viver sem sofrer
com o manual de como morrer sem morrer

ELES DIZEM E NÃO DIZEM

já se foi a infância
já se foi nossa pátria esquecida
nós
os animais da
água rasa

Horácio Pontes

Imagem: Wolter Tom

Via láctea

o amor que se inaugura
na brusquidão
seu monumento de gelo
que chora no sol
sua geometria que se desfaz
a aresta que bebe
o sono aceso que tem
o destino certo
o chão
terra e água
a lama da Via Láctea
de Buñuel

estaríamos melhor se
os olhos que acercam
o monumento de gelo
fosse incerto
como o destino
dos que estão sós

Horácio Pontes

Imagem: Andrés Nieto Porras