Poema para Leuconoe [3]

o tempo estremece
as rochas
Leuconoe

vence o tempo
com suas ondas
que ricocheteiam
jorrando espuma
na vida velada

o tempo silencia
o céu
Leuconoe
e observa
sua clausura
seu desvio para
outros caminhos
que fogem ao horizonte

o amor mata
o amor
Leuconoe

sem tristezas
sem discursos
apenas mata
e resta tentar
resgatar o tempo
o tempo que passou
mas isso é impossível

porque o tempo
clama por vida

vida que passou

Horácio Pontes

Imagem: Simon Schmitt

Chove

chove novamente
forte
suas águas que
arrastam
ou trazem
nossos rostos
apagados
que resistem
à esterilidade
da vida

seu barulho
atonal de silêncio
sua harmonia caótica
que cintila ao encontrar
o chão
seu céu
de cabeça pra baixo

e chove
no nosso próprio
chão
infinitamente
e dentro de algum
tempo
nos dobraremos
em posição de oração
que revelará
a deficiência entre
os dedos
a chuva de cabeça
pra cima

nossas lágrimas
de mortal eternidade

Horácio Pontes

Imagem: Victor Camilo

Poema

acho que poderia morrer
abraçado ao amor que nunca
existiu
mas não porque eu quis
mas porque a vida congelada
me fez ser

e parto para essa comoção
de mim mesmo
as marcas na pele
do que vi
do que li
e do que ouvi

porque os poetas
me ensinaram que
aqueles que escrevem
em pedaços
sobrevivem à tradição
por mais tempo

o amor
esse sentimento incurável
que o poema exige
que o verso precisa
e precisa o momento
exato em que parimos
a mentira
a sinestesia
de jurar a si mesmo
nunca mais escrever

e enquanto o amor morre
no último abraço
em minha também morte
por baixo das palavras
de nossas vergonhas
e até de nossas roupas
já não existe mais nada
sim
absolutamente nada
porque o relógio vai parar
a qualquer segundo dentro
de suas situações impossíveis
em que todos pedem o sono
finalmente

e a morte virá com esse abraço
que sempre pedi
e que nunca tive em vida
mas que me fará sua revelia

o amor que tive por algumas
pessoas
do amor que tive por ti
e que gostaria de dizer

mas não porque eu quis
mas porque a vida
me fez ser

Horácio Pontes

Imagem: Jan Jespersen

Chuva

a chuva cai com força
cai com tanta força que machuca
e vem a dor
dentro e fora
e não dormimos
prisioneiros de seu som
que protesta e reverbera
suas moléculas simples
que se partem
que partirão rumo à pele
infusão de medo
selvagem que precipitará
mais tarde um rio

a chuva que derruba
a parede
e nós
o homens cegos
de vida

Horácio Pontes

Imagem: Loren Gu

Poema inominado [2]

tudo é morto
tudo está definitivamente morto
porque todo nosso esforço
porque todo nosso sacrifício
não passa de uma oferenda

e tudo é morto
irreconhecível
irreconhecivelmente irreconhecível
o amor
o ódio
a ternura
a tristeza
o sono
a insônia
a vida
a morte

vivemos como se fôssemos vivos
fingimos a fome igual
fingimos o amor
e adentramos portas
– quaisquer portas –
e o tempo que fica no batente
não é reclamado ou sequer
reconhecido
porque tudo é morto

e nossas mãos mortas
cumprimentam
e saúdam outras mãos mortas
e o tempo ali não é contabilizado
porque o que é morto não tem tempo
e tudo cheira a rosa queimada
com nossos peitos presos
ao coração seco

e tudo é morto
irreconhecível
todos mortos
que caminham com seus
registros gerais
com suas fichas
sem amanhecer
e nem anoitecer
que apenas zunem
a vida
continuamente
perpetuamente
onde não podemos
questionar a solidão
da foto
no registro
na ficha
no nada

todos estão mortos
dormindo profundamente
por todos os lados

e há frio
há cólera não compreendida
há o gosto metálico na boca
há entre nós uma comunhão
não compreendida
uma fina linha de paz
que irradia da morte
que irradia dos mortos
e nossas falas íntimas
que não repetimos sequer
dentro da gente em meio às
horas letárgicas

somos raios partidos
conciliados na não-vida
na irreversível e profunda
morte de mim
morte de ti
morte de todos

Horácio Pontes

Imagem: Domenico Zauber

Poema inominado [1]

já não existe o sorriso
já não existe o adeus
tudo perdeu força
tudo perdeu esperança
andar já não sabemos mais
as memórias já se confundem
e não há mais a exatidão do tempo
e sofreremos a ausência
a ausência de vida
a ausência de sorrisos
a ausência até de um adeus
porque nunca houve a chegada

e o ato da consciência
gerará a desobediência
a amargura de todo um destino
a amargura de toda uma vida
em que vida não houve

ajoelharemos para algo
na busca de descansarmos
[em paz]

Horácio Pontes

Imagem: Edward Musiak

Das horas

existe sim uma hora de tristeza
em cada amanhecer
a hora mais complicada
em que vem a reflexão
aos que sofrem
aos que questionam
e vem a grande pergunta
“por que eu existo?”

e não teremos a resposta
ela não virá
mas a esperaremos
em horas como essas
em cada amanhecer
em cada entardecer
em cada fechar de olhos
onde um pouco mais de reticências
virão
e as hipóteses darão lugar a coisas
que nos farão beber
que nos farão fumar
que nos farão morrer

e tudo virá entre o esplendor
de pensar saber a resposta
e ter a certeza de não a ter
porque nem sua tristeza
– e nem isso! –
é totalmente sua

Horácio Pontes

Imagem: Nick Kenrick

 

Marcha ao nada

Para Ananda

sentir de nada serve
dissera alguém que conheci
a existência em cacos
em sonhos partidos
músicas que nos fazem chorar
as janelas fechadas
com chuva do lado de dentro

e o que adiantaria descobrir a verdade?
e o que é a verdade?
nesse momento milhares de pessoas com o
mesmo pensamento tomam suas verdades
engolidas no seco de nossas gargantas
e o grito não sai

e sentir de nada serve
acabo sempre nos mesmos dilemas
nos mesmos dissabores dos sentimentos
do mistério a por simbologias
neologismos
todos os ismos
que acabam em lugar nenhum

que acabam em mim como se fossem
verdades
mas o que é a verdade?
a existência
ou a consciência de pensar
saber a verdade
a derrota de tudo
a lucidez consciente
porém não admitida
dentro do que deveria
ser pensamento
partida
partida única para
qualquer coisa que não
seja uma utopia
chorada aos prantos

hoje encaro a vida perplexo
sempre em fuga
a fuga no entardecer
a fuga na flor que abre
a fuga no beija-flor que te encara
por um breve segundo e te diz coisas
que você mesmo inventa para se tornar
consciente
a realidade a por ficção
a ficção a por realidade
e o que é o quê?

a derrota é certa
precisa
e inexata como o ponteiro
de um relógio cansado
e não adiantou nada aprendermos
as coisas banais da vida
da sobrevivência com seus
propósitos impostos por pessoas
que são tão iguais
tão indiferentes ao que importa

a existência em cacos
em sonhos partidos
em imagens que para mim são reais
sim
extremamente reais
iguais as árvores em que nunca descansei
mas é como se eu sempre descansasse sobre
elas
vivas
enormes
ímpias

e o que pensar?
o que sentir?
tantos sentem a mesma coisa que eu
e talvez não somatizem tanto
as coisas
talvez nem pensem nada
e eu que seja o louco
que sofre com qualquer
bater de vento
de entardecer torto
de um animal qualquer
que te encara com pena

nada serve
nem as certezas
que outras pessoas
iguais a mim
iguais a você
vomitam
vociferam como se
fossem a única verdade

a verdade
a verdade verdejando
em cérebros imundos
todos celebridades
gênios que vomitam
ideias absurdas
na televisão
no rádio
em seu celular
em seu computador
e replicadas como coisas
realmente importantes
o compadecimento
ao choro fingido
as exéquias da certeza
e da verdade

acreditaram que eu seria um grande homem
aspiraram em mim a vitória
aspiraram em mim a nobreza

mas eu não venci
eu não sou nobre
nunca fui

pude ter o mundo
ou aquilo que chamei de mundo
e recusei tudo
recusei absolutamente tudo

e tenho dentro de mim uma vitória
muito maior
mas que todos pensam ser derrota
eu tenho a visão
a sensibilidade que todos jogam
no lixo

e adianta sentir?
dissera alguém que conheci

tenho sonhos complexos que são derrotas
tenho humanidade suficiente
para consertar muita coisa injusta
e que fere
fode
maltrata
e mata

passarei o resto de meus dias
isolado
esquecido
porque não sigo o movimento
que todos seguem
como se fossem gado prontos
para o abate

serei aquele que terá apenas dois ou
quem sabe três leitores
e isso não me impedirá de mostrar
o pouco que sei
serei sempre o que não deveria
ter nascido
aquele que esperou por um chute no meio
do cu
vindo de deus
mas ele nunca apareceu
e seria loucura demais
pensar que um dia aparecerá

porque sou humano
porque sou apenas mais um
que resolve dar das costas
para a felicidade
para as felicidades que podem
ser compradas em potinhos
na loja mais próxima

e por que deveriam acreditar em mim?
não sei de absolutamente nada
além das coisas que sinto
quando pra mim machuca ver
um entardecer
outra pessoa não sente absolutamente
NADA
e isso faz de mim o maior vencedor
um vencedor de mim
porque o sol
a chuva
e o vento
e as estrelas
e a lama
me fazem humano
porque sinto
porque sinto mais que os outros
enquanto os outros não sentem

não quero ser lembrado
talvez nunca tenho criado
nada que já não tenham
citado ou dito
mas para mim é como se tudo
fosse novo
minha alma é como um arauto
dos insignificantes
que conhece o olhar de seus iguais

a única maneira de estar sozinho realmente
é estar no meio de uma multidão

sentir de nada serve
dissera alguém que conheci
a existência em cacos
em sonhos partidos
músicas que nos fazem chorar
as janelas fechadas
com chuva do lado de dentro

fiquei para trás
igual essas linhas escritas com pressa
preso à mesa de trabalho
pensando numa vida diferente
num sistema totalmente utópico
no qual deito toda a minha existência
e fica essa tristeza ao olhar
o próximo
as pessoas que estão na mesma aba que eu
mudas
cegas
que vomitam e mostram seus potinhos
comprados com muito esforço
e muita abnegação

eu choro
mas não derramo lágrimas
porque não sou superior
e nem inferior a essa gente
talvez quisesse ser fraco
igual a eles
cegos
e mudos
com um potinho todo
colorido e cheio de
funcionalidades

meus sentimentos são pétalas
caídas
pisadas
secas
vejo tudo com certa
tristeza
na verdade sempre vi
tudo com esses olhos
de que nada servem
nem com as certezas
que outras pessoas
iguais a mim
iguais a você
vomitam
vociferam como se
fossem a única verdade

Horácio Pontes

Imagem: Santiago Rusiñol

Alto

existe
ou deveria existir
um espaço para a
compreensão da tristeza
lá no alto
no alto de qualquer
coisa
sim

porque na vida
que vai com o vento
igual uma folha ferida
penamos serenamente
na incompreensão das
coisas

então viramos ilhas
espírito dos que escrevem
e buscam qualquer coisa
vagando pateticamente
pelas sopradas que a
vida nos dá

existia
ou existiu
a espiral que aguardava
a nós
sonhos consumidos numa
garrafa
numa angústia de estar
no vazio
e lá no alto
o pensamento
seria um farol para os
próximos

lá no alto de qualquer
coisa

Horácio Pontes

Imagem: Serge Saint

Do que nunca tive

das coisas que nunca tive
amor
paixão
compreensão
entender
sentir
tudo isso que desejei
foram as coisas que
me fizeram
e não as tive

amei e esqueci
me apaixonei
e perdi
compreendi
mas não aceitei
entendi
mas não acreditei
eu senti
mas reneguei
até rezei
mas não cri

e perambulei nos mundos
criados dentro de minha cabeça
salguei a terra sem olhar para trás
e cansei meu corpo
e cansei meu olhar
dentro de mundos que nunca
existiram e que me azedaram
para sua suposta realidade

tentei me adaptar ao que poderia
ser uma ideia de mundo
e não consegui
e levei dentro de mim
um mundo que não nasceu

cresci achando que teria que ser algo
que deveria ser algo importante
e fui cobrado por isso
mas não fui nada
não sou nada
não pude ser o que me pediram
e agora escrevo
porque nada mais consigo fazer

escrevo sobre a guerra interior
as coisas que nunca tive
porque não as sei
não as conheço
e se acho que conheço
a certeza nunca virá
porque escrever sobre
o que nunca se teve é de
fato a certeza
do que não sabemos

Horácio Pontes

Imagem: Neil Moralee