Pequena biografia

O que poderia ser pior que a solidão forçada e não-voluntária? É uma época agora relativamente distante, superada entre bebedeiras, vômitos, golpes fodidos de realidade, entre uma música e outra no meio de tanta imundice. A conformação também veio forçada. Nasceu a tristeza (que não chamava de tristeza até a hora pretendida) em meio aos tropeços, enfrentando os ventos que traziam as palavras embaralhadas, que sem pena me castigou e me trouxe a ânsia de vômito, como se fosse virar do avesso para um desastre sempre horripilante para meus sentimentos pouco lapidados. Passei mal com tanta tristeza, com qualquer coisa que amei e tive que ser obrigado a deixar para trás e superar como se finalmente soubesse de tudo.

Quantos de nós não sentimos o tempo abrandar sempre no pior momento para então termos o choque indescritível da realidade, do sentimento de que nada se pode fazer? Quantas vezes eu procurei abrigo nas gramíneas dos parques, virado como um gato de barriga pra cima, olhando o céu, para poder continuar de algum modo? Fui mal pensado, errei o caminho da paz, errei o caminho da alegria e fingi ter acertado o caminho durante muito tempo, cometi confusões, misturei a raiva e o ódio com a pureza do outro lado da estrada. Fui – e ainda sou! – um abobalhado.

Ninguém, além de nós, se lembra da marcação do tempo na descida do Sol. Ninguém, além de nós, se lembra da algazarra que a solidão forçada nos faz a cada precipitação de água no céu. Ninguém, além de nós, sabe a verdadeira meta de nós mesmos e de como ela se esfarela a cada derrota, a cada desistência após uma tentativa com o sabor de eu tentei, tentei mesmo. Eu deveria ter sido verdadeiro comigo mesmo, de que alguma coisa no meio de tantas outras não se encaixava. Será que falhei? Será que deveria ter sido assim? Poderia ter feito diferente? Por isso que o berro fodido do mundo me dói até os ossos, até a primária sensitividade da existência.

Sou egoísta ao escrever, falo de mim. Porém, sei que muitos outros pensam as coisas que ameacei pensar. Quantas vezes, debaixo de árvores ocas, esperando o sinal abrir, não tivemos pensamentos secos que nem a fumaça do ônibus, todos interligados e mortos? O castigo definitivamente não vem ao acaso, é uma dialética seca que temos que desvendar e se possível vencer. Talvez fosse inteligente ficar na estrada mais bonitinha e movimentada, em grupos, para não nos perdermos. Nada poderia parecer mais belo e simples. Por que não fiz isso? Se eu ao menos pudesse arrancar a tristeza de mim, se eu pudesse superar a hierarquia da solidão, dormir, comer sem a pressa cotidiana e de vez em quando poder fumar um cigarro sem a confirmação da realidade no final dele. A solidão tentou me anular durante anos, e conseguiu, não tinha armas, estava descalço.

Lembro-me de um sonho que tive. Imaginei a primeira mulher que amei ao pé de uma árvore gigante e eu a via de longe. Ela não estava morta. Sorria perfeitamente de acordo com a estrada bonitinha e movimentada. Levava lentamente a mão aos cabelos e olhava para o chão, pedindo com aquele gesto que eu aceitasse a solidão também com um sorriso cheio de lágrimas, sem arfar o cansaço infinito de cada solapada de final de tarde enquanto certamente daria de ombros para toda a estrada e faria alguma coisa numa folha de caderno. Acordei chorando, com febre. Seria facilmente desvendado naquela ocasião se não estivesse sozinho para meu desembarque na vida.

Vale aproveitar a pouca calma interior que seres como nós temos? Talvez. Em meu sonho deveria ter aproveitado a visão dela, apenas me perceber olhando a mulher que perdi para a vida anos atrás, de poder perceber as labaredas laranjas guiando o meu encontro casual com uma forma no céu, ou nela, com as mãos nos cabelos. Penso em meu sentimento, perto e longe de mim, em minha covardia para encontrar um porto onde se possa dormir sem a interrupção, onde poderei aquela música que sempre me acompanhou nessas horas, essa transposição da solidão para algo cauterizado no coração. Penso sobre isso, canto sua melodia e o desenho na areia da praia. A solidão e a tristeza se juntam e travam comigo uma amizade e sinto que isso jamais se perderá. A música, perto de seu final é quando sinto a rebelião maviosa. É como nos defendemos, à nossa maneira ridícula e infiel, a transpor uma batalha perdida, UMA GUERRA PERDIDA. A ordem a tentar dar o sentido, ao movimento minimalista da música querendo justificar a aproximação ao porto, a sua melodia fina e quebrante. É o meu encontro com a solidão forçada e não-voluntária. Quanta insensatez.

Horácio Pontes

 

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