Despedida

Penso. O amor é uma espécie de livro que a gente sempre recorda, igual um livro esquecido que lemos. Ele se revela na lembrança, no sentimento, como um texto que rasga sua alma ao ser relembrado em outras situações. A arte pode ser ignorada, pode ser esquecida, pode ser relembrada com certo medo. Essas coisas modificam o olhar, o sentir. Penso.

Há muito tempo que penso em desistir de tudo, desses livros que lemos e com os quais sofremos, quando nos pomos no lugar da roupa velha jogada no chão com uma descrição quase poética dos livros, do amor, da nossa forma com o corpo, com o limite da travessia. Aliás, travessia essa que é única e que não ousamos modificar porque é tarde demais. O que sobra é uma imagem repetida de nós mesmos, uma figura do para sempre, da rendição tão sonhada na hora da covardia, da estafa.

A rendição. Penso. Eu me rendi centenas de vezes sem entender porra nenhuma do que realmente importa, da página relida mais de vinte vezes e sempre naquele trecho que passa em branco, toda vez, o péssimo entendimento da resposta ou da não-resposta. O que importa? Desejei um mundo justo, sem tristezas, sem disputas. Desejei um mundo com árvores em que pudesse descansar sem medo, de rios em minha alma que me levassem aos lugares realmente importantes, não desses rios que descrevi até o momento desse texto, lendas em minha cabeça, ilusões em minha alma. Não, não! Eu queria um rio de verdade, que me pusesse finalmente em contato com a vida. Não quero nada que desemboque no passado, em meu vazio tão cheio. Penso ainda. Ainda Penso. Queria esquecer meu passado, dessa brutalidade de pensar, da fúria do amor, da ação premeditada do fracasso. Sim, eu sou um fracasso, a loucura de um sonho seco, em êxtase com minha própria loucura, com meus textos de um tema só. Da incapacidade de não saber mudar o tema, os fragmentos do choro engolido, dos pés descalços na lama, da alma, do corpo.

O que não deveria existir, mas existe. Tornou-se algo para nossa eternidade, ou melhor, para MINHA eternidade. Coisa profunda que não ouço mencionar, o aborto, a vida. As pessoas que se lambuzam com a cegueira. Sim! A cegueira é tão bonita, presa aos olhos, aos dentes, aos ouvidos. As coisas que não deveriam existir quando realmente não existem, levam melhor sabor às coisas, não hipnotizam a metafísica toda hora evocada, não dilaceram os ditongos cognitivos, porque nunca aprenderam, nunca realmente aprenderam a vida e até mesmo a cegueira. Se não fosse isso, a cada noite que penso – sempre antes de dormir, pois é sempre antes de dormir que os pensamentos são mais viscerais! – o coração pesado, cheio de tristezas, pronto para o tão sonhado ataque, até que caia duro, na cancha; essa digestão forçada de coisas tão ruins. Por que não mudamos isso?

O que existe é a vida amarga, quente, queimando o céu da boca, estraçalhando sonhos na primeira esticada fora da cama. A madrugada atinge-nos em cheio, mesmo que estejamos dormindo, sonhamos. Que sonhos? Não há vida, não há escola que ensine. Nada é belo. Nós que fazemos o belo de acordo com nosso sofrimento. Eu aprendi a endeusar os finais de tarde, aqueles especialmente amarelos, laranjas, com nuvens em tons de azul e cinza. Minha mediocridade fez isso comigo. Tornou-se remédio, droga, necessidade. Uma repulsa a cada pensamento. PENSO. A minha natureza fraca do que poderia ser realmente, um livro batido com toda a força das mãos ao se relembrar o amor, a vida ou qualquer coisa. Não importa. Ainda penso. A mentira é um acesso fácil ao que todos precisam. A mentira pode ser até generosa num curto prazo. Tudo isso porque às vezes precisamos mapear o amor de forma errada, de buscar o sorriso no enfeite postiço, coisas que não deveriam caber no mundo. Os defeitos mais perigosos que se tornam alicerces de um mundo feito da pior maneira. E por que eu escrevo disso? Por que penso nisso?

Sinto que pertenço a um grupo realmente pequeno. Sinto-me o maior dos oprimidos, egoistamente, é lógico. Eu entendo de tudo mais do que todos. Sei destrinchar o amor, lógico que sei. Eu sei tudo que antevê a explosão. Sou um especialista do amor fodido, da necessidade de me machucar, de ficar perto da explosão e esperar que algo me fure o coração, e que sangre ao ponto da quase morte.

Sou ausente da vida, sou ausente de vida. E um dia toda essa merda toda será apenas mais uma memória, mais um livro de uma nota só. As pessoas serão outras, talvez as mesmas, mas o bolo sempre aumenta. A memória sempre cabe um pouco mais. E a esquecerei, como sempre fiz. Serei o cão que o mendigo alimenta, serei a memória resgatada quando necessária, em minhas mãos, nas mãos daqueles poucos que choram comigo e que me entendem, e me aplaudem dentro de suas cabeças, numa virada de página com o pensamento distante, nessa merda que dói, dilacera, cospe, maltrata e que mata. O grande esquecimento, deus de uma memória de estar existindo.

Penso. Uso meu verbo para rasgar a própria carne, rei de uma terra de ninguém, de escravos cardíacos do próprio pensamento, da eloquência de não dizer merda nenhuma, sem sentido, uma parábola de uma eternidade mortal. As tristezas fecundadas em sangue, em lágrimas, em lama. Acho que é tempo de cegar as coisas, tempo de cegar as sombras que o vento forte faz.

Horácio Pontes

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