Marcha ao nada

sentir de nada serve
dissera alguém que conheci
a existência em cacos
em sonhos partidos
músicas que nos fazem chorar
as janelas fechadas
com chuva do lado de dentro

e o que adiantaria descobrir a verdade?
e o que é a verdade?
nesse momento milhares de pessoas com o
mesmo pensamento tomam suas verdades
engolidas no seco de nossas gargantas
e o grito não sai

e sentir de nada serve
acabo sempre nos mesmos dilemas
nos mesmos dissabores dos sentimentos
do mistério a por simbologias
neologismos
todos os ismos
que acabam em lugar nenhum

que acabam em mim como se fossem
verdades
mas o que é a verdade?
a existência
ou a consciência de pensar
saber a verdade
a derrota de tudo
a lucidez consciente
porém não admitida
dentro do que deveria
ser pensamento
partida
partida única para
qualquer coisa que não
seja uma utopia
chorada aos prantos

hoje encaro a vida perplexo
sempre em fuga
a fuga no entardecer
a fuga na flor que abre
a fuga no beija-flor que te encara
por um breve segundo e te diz coisas
que você mesmo inventa para se tornar
consciente
a realidade a por ficção
a ficção a por realidade
e o que é o quê?

a derrota é certa
precisa
e inexata como o ponteiro
de um relógio cansado
e não adiantou nada aprendermos
as coisas banais da vida
da sobrevivência com seus
propósitos impostos por pessoas
que são tão iguais
tão indiferentes ao que importa

a existência em cacos
em sonhos partidos
em imagens que para mim são reais
sim
extremamente reais
iguais as árvores em que nunca descansei
mas é como se eu sempre descansasse sobre
elas
vivas
enormes
ímpias

e o que pensar?
o que sentir?
tantos sentem a mesma coisa que eu
e talvez não somatizem tanto
as coisas
talvez nem pensem nada
e eu que seja o louco
que sofre com qualquer
bater de vento
de entardecer torto
de um animal qualquer
que te encara com pena

nada serve
nem as certezas
que outras pessoas
iguais a mim
iguais a você
vomitam
vociferam como se
fossem a única verdade

a verdade
a verdade verdejando
em cérebros imundos
todos celebridades
gênios que vomitam
ideias absurdas
na televisão
no rádio
em seu celular
em seu computador
e replicadas como coisas
realmente importantes
o compadecimento
ao choro fingido
as exéquias da certeza
e da verdade

acreditaram que eu seria um grande homem
aspiraram em mim a vitória
aspiraram em mim a nobreza

mas eu não venci
eu não sou nobre
nunca fui

pude ter o mundo
ou aquilo que chamei de mundo
e recusei tudo
recusei absolutamente tudo

e tenho dentro de mim uma vitória
muito maior
mas que todos pensam ser derrota
eu tenho a visão
a sensibilidade que todos jogam
no lixo

e adianta sentir?
dissera alguém que conheci

tenho sonhos complexos que são derrotas
tenho humanidade suficiente
para consertar muita coisa injusta
e que fere
fode
maltrata
e mata

passarei o resto de meus dias
isolado
esquecido
porque não sigo o movimento
que todos seguem
como se fossem gado prontos
para o abate

serei aquele que terá apenas dois ou
quem sabe três leitores
e isso não me impedirá de mostrar
o pouco que sei
serei sempre o que não deveria
ter nascido
aquele que esperou por um chute no meio
do cu
vindo de deus
mas ele nunca apareceu
e seria loucura demais
pensar que um dia aparecerá

porque sou humano
porque sou apenas mais um
que resolve dar das costas
para a felicidade
para as felicidades que podem
ser compradas em potinhos
na loja mais próxima

e por que deveriam acreditar em mim?
não sei de absolutamente nada
além das coisas que sinto
quando pra mim machuca ver
um entardecer
outra pessoa não sente absolutamente
NADA
e isso faz de mim o maior vencedor
um vencedor de mim
porque o sol
a chuva
e o vento
e as estrelas
e a lama
me fazem humano
porque sinto
porque sinto mais que os outros
enquanto os outros não sentem

não quero ser lembrado
talvez nunca tenho criado
nada que já não tenham
citado ou dito
mas para mim é como se tudo
fosse novo
minha alma é como um arauto
dos insignificantes
que conhece o olhar de seus iguais

a única maneira de estar sozinho realmente
é estar no meio de uma multidão

sentir de nada serve
dissera alguém que conheci
a existência em cacos
em sonhos partidos
músicas que nos fazem chorar
as janelas fechadas
com chuva do lado de dentro

fiquei para trás
igual essas linhas escritas com pressa
preso à mesa de trabalho
pensando numa vida diferente
num sistema totalmente utópico
no qual deito toda a minha existência
e fica essa tristeza ao olhar
o próximo
as pessoas que estão na mesma aba que eu
mudas
cegas
que vomitam e mostram seus potinhos
comprados com muito esforço
e muita abnegação

eu choro
mas não derramo lágrimas
porque não sou superior
e nem inferior a essa gente
talvez quisesse ser fraco
igual a eles
cegos
e mudos
com um potinho todo
colorido e cheio de
funcionalidades

meus sentimentos são pétalas
caídas
pisadas
secas
vejo tudo com certa
tristeza
na verdade sempre vi
tudo com esses olhos
de que nada servem
nem com as certezas
que outras pessoas
iguais a mim
iguais a você
vomitam
vociferam como se
fossem a única verdade

Horácio Pontes

 

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