Poema inominado [2]

tudo é morto
tudo está definitivamente morto
porque todo nosso esforço
porque todo nosso sacrifício
não passa de uma oferenda

e tudo é morto
irreconhecível
irreconhecivelmente irreconhecível
o amor
o ódio
a ternura
a tristeza
o sono
a insônia
a vida
a morte

vivemos como se fôssemos vivos
fingimos a fome igual
fingimos o amor
e adentramos portas
– quaisquer portas –
e o tempo que fica no batente
não é reclamado ou sequer
reconhecido
porque tudo é morto

e nossas mãos mortas
cumprimentam
e saúdam outras mãos mortas
e o tempo ali não é contabilizado
porque o que é morto não tem tempo
e tudo cheira a rosa queimada
com nossos peitos presos
ao coração seco

e tudo é morto
irreconhecível
todos mortos
que caminham com seus
registros gerais
com suas fichas
sem amanhecer
e nem anoitecer
que apenas zunem
a vida
continuamente
perpetuamente
onde não podemos
questionar a solidão
da foto
no registro
na ficha
no nada

todos estão mortos
dormindo profundamente
por todos os lados

e há frio
há cólera não compreendida
há o gosto metálico na boca
há entre nós uma comunhão
não compreendida
uma fina linha de paz
que irradia da morte
que irradia dos mortos
e nossas falas íntimas
que não repetimos sequer
dentro da gente em meio às
horas letárgicas

somos raios partidos
conciliados na não-vida
na irreversível e profunda
morte de mim
morte de ti
morte de todos

Horácio Pontes

 

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2 comentários sobre “Poema inominado [2]

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