Poema

acho que poderia morrer
abraçado ao amor que nunca
existiu
mas não porque eu quis
mas porque a vida congelada
me fez ser

e parto para essa comoção
de mim mesmo
as marcas na pele
do que vi
do que li
e do que ouvi

porque os poetas
me ensinaram que
aqueles que escrevem
em pedaços
sobrevivem à tradição
por mais tempo

o amor
esse sentimento incurável
que o poema exige
que o verso precisa
e precisa o momento
exato em que parimos
a mentira
a sinestesia
de jurar a si mesmo
nunca mais escrever

e enquanto o amor morre
no último abraço
em minha também morte
por baixo das palavras
de nossas vergonhas
e até de nossas roupas
já não existe mais nada
sim
absolutamente nada
porque o relógio vai parar
a qualquer segundo dentro
de suas situações impossíveis
em que todos pedem o sono
finalmente

e a morte virá com esse abraço
que sempre pedi
e que nunca tive em vida
mas que me fará sua revelia

o amor que tive por algumas
pessoas
do amor que tive por ti
e que gostaria de dizer

mas não porque eu quis
mas porque a vida
me fez ser

Horácio Pontes

 

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3 comentários sobre “Poema

  1. Como é asfixiante achar perdido um amor… gostei do trecho “absolutamente nada
    porque o relógio vai parar
    a qualquer segundo dentro
    de suas situações impossíveis
    em que todos pedem o sono
    finalmente”

    Mas creia, que por meio das palavras o amor se eterniza, e mais, você pode torná-lo o que quiser, as palavras podem fazê-lo viver na intensidade, com verdade, mas na visão que é propriedade sua.

    Curtido por 5 pessoas

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