17.

Dói saber que a vida é apenas um acaso e sentimos nisso a necessidade de pormos pássaros em nossos céus, que adentram todas as nuvens e voltam para nós para contar tudo que viram num idioma que não conhecemos. E aí aprendemos a como olhar o céu e seus movimentos, suas nuvens e seus pássaros que cortam a imagem danificada pelo acaso. A fábula recheada de imaginação, de ritos, passagens e seres mais mitológicos que o pássaro em seus acasos. E depois de anos evitaremos o espelho porque o amanhã já não pertence mais a gente, mas aos outros que farão a mesma pergunta surrados pelo amor que silencia acasos, pássaros, nuvens ou qualquer outra coisa. Virá então a compreensão e se ela não aparecer você fingirá que entende do mesmo modo, porque palavras envelhecem, acasos também.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

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