46.

LEMBRANÇAS DE BOLSO

Mais uma vez o fracasso toma conta de mim, a incapacidade de acreditar nas pessoas por quem algum apreço tivera. Tenho que me escorar na noite, nas ruas cheias de gente – e solitário! – e sentir o bater de dentro pra fora, a violência cretina e súbita de ser estranho a um mundo que tenta se organizar da pior maneira. Não reclamo das coisas naturais, reclamo do homem, que afeta tão poderosamente o curso das coisas e que me traz a sensação de fracasso. Sinto por todas as pessoas falando de empregos, fofocas e jornais, de tudo que não faz parte do que entendo como abrir caminhos.

Os homens falam com a inconsciência, organizam-se em meio ao processo de uma sociedade absolutamente inferior ao que penso, ou até mesmo ao que empregam as abelhas, os cupins ou as formigas. Deixando de lado os sistemas, a existência ou sabe lá mais o quê, não se revela nada a não ser o fim das coisas, da amizade trocada por um sistema falível. Sinto a derrota nas minhas palavras, sinto deus me castigar mais uma vez, o mesmo deus que não acredito, pois o homem não deveria se divisar na inteligência, mas sim em algo maior que isso, pois alguns se acham superiores e não são. A beleza não é para quem lê, mas para quem compreende o erro, o que atende a certos fatos e não muda sua essência, que não pega para si o broche da falsa capacidade, da falsa inteligência ou da superioridade. Isso não passa de um elemento de imperfeição. Tendo a ciência de tudo isso, diante do mal no qual estamos chafurdados, da bondade e da justiça que deus tanto pregou, não posso aceitar isso senão sendo algo do próprio homem – essa semente esquecida e jogada na existência! – em sua arrogância, nos que erram as contas e não se dão conta disso, nos que estragam a amizade secular, o amor, a arte, a sensibilidade e até mesmo a poesia. Não aceito nada que seja superior sem que haja um fundamento. Acredito apenas na capacidade do homem destruir as coisas, nos pormenores do que chamo “ajustamento do universo”, um lapso ou não-lapso das razões sem que nos seja dada a visão realmente verdadeira das coisas fora do sistema. A amizade, o amor, tudo isso é um ritmo, um verso construído dentro de uma imperfeição que pode ser bela. Só me resta o fracasso ao fim de algo que jurava eterno como certas amizades, só espero não perder mais ainda. Também não quero que pensem que minha falta de fé decorre apenas disso ou da dor de barriga que temos recorrentemente. O erro consiste em não enxergar os atos, não ter o argumento necessário, como pessoa inteligente que nos julgamos, para consertar as coisas, dar a distinção do que é certo e tentar ser justo. Não posso negar que o fracasso na vida é inevitável, mas o fracasso não deveria ser aceito. Confesso que o problema realmente continua e é cada vez mais forte em todos nós, mas é cada vez mais forte porque em todos nós subsiste nossa capacidade de não enxergar as coisas.

Roberto Lorembrant
Do livro O Girassol Mecânico

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15.

Ser um anônimo nas ruas que não caminham é doloroso. A caminhada para uma violência de outras sensações, vidas, pessoas. Da minha filosofia que afunda terrenos para um pântano que nem eu mesmo sei sair. Acabo por representar o básico, o superficial, para tentar ser apenas mais um e tentar a aceitação do que um dia foi ou talvez possa ser uma vida. E o silêncio sai de minha boca. Sim, porque é preciso. É a única maneira de não perder a beleza infinita do alvorecer. E o anônimo dentro de mim pede a guerra e se cansa do mundo na primeira notícia ruim, porque o céu nessas cenas faz mal aos olhos. Sim, tenho certeza disso. E caminha pelas ruas um anônimo dentro de mim, e dói. Dói porque nunca tive um pai, mas sim mais um silêncio que ninguém sabia. Anônimos, apátridas, todos eles sabem o que são o derramamento de ausências, sons que não existem e a provável poesia disso.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

14.

Depois de tantos anos acabamos aprendendo alguma coisa com a ausência. Aprendi a escrever menos, aprendi a prestar mais atenção na cartografia dos olhos. Os sinais que deixamos – com o tempo – pra lá e não sabemos mais como interpretar. Tudo é, depois de anos, um catálogo, uma mancha nessa cartografia. E caímos para cima, do teto que encaramos antes do sono, nas linhas que machucam a parede e sopram seus tempos para uma fuga. O sonho que durou 10 anos em alguns minutos, da última tragada denunciada na aquarela que paira no ar. Sim, a ausência pode ser traduzida em bilhões de esferas e idiomas e ainda assim quando bate aos olhos, consciente, guarda uma beleza que só pode ser extraída da própria vida que queima.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

13.

Eu tinha o costume de caminhar à noite quando era mais jovem. Principalmente no verão, quando a luz permanecia por mais tempo no céu, porque era interessante em minha cabeça pensar num pôr do sol perto das oito da noite. O céu laranja que irradia uma leve e tênue tristeza. Lembro que numa dessas ocasiões choveu forte, mas era uma chuva de uma nuvem só, localizada num ponto do céu, quando você nota aquele fio de água turvando aquele pequeno espaço. Uma sinfonia silenciosa num ponto tão pequeno do universo. Vem a imagem dos pés encharcados dentro do tênis, verão em seu pico. As folhas farfalhando e o sentimento que engole e sufoca. Cada lembrança, cada faísca, cada memória. E nada – absolutamente nada – lhe será compensado. A insônia posterior é quase uma certeza, e me colocarei novamente nessas ruas pensando nos livros que li, na imagem mental que faço ao imaginar aquelas pessoas caminhando igual a mim, sem rumo, sem prescrições, sem porquês. O contraste da noite com o entardecer de antes. Luz e escuridão. A divisão que faz despertar o que éramos e o que somos sem saber qual lado é o certo, as situações que pensamos e imaginamos poder consertar num episódio hipotético, os cruzamentos morais, mentais e geográficos do que achamos ser. O terror e medo correm a pele e tudo é preenchido de escuridão, de chiaroscuros sublimes que queimam o percurso para lugar nenhum.

Era assim. Eu andava com um tênis velho, bermuda surrada, descendo e subindo as ladeiras de meu antigo bairro. Algumas horas cruzava com outras pessoas. Dentro de mim tinha o pensamento de que poderia ser ouvido, ser entendido e que elas também poderiam falar algo. Gostaria que soubessem que de alguma maneira poderiam falar aquilo que sentem sem serem julgadas, mas no fim, acho que sempre preferia a rua quando ela não tinha ninguém. Não precisava de companhia, talvez hoje ainda não precise. Só queria ser um componente invisível da noite, daquela noite.

Queria ser qualquer coisa condicional na qual pudesse me afogar e sumir no segundo seguinte, que a escuridão adentrasse meus olhos e saísse voando até a nuvem isolada de chuva mais próxima. Eu me pegava – e ainda me pego – nesses pensamentos todos os dias, sempre na mesma hora. Procurando dissolver essa ideia entre corpo e fantasia, consumar em mim a destruição dessa fronteira onde um e outro começam e acabam. Era o que fazia para esquecer o que me machucava, da dor que era por minha cara ao espelho todos os dias, da lembrança perversa de sentir gosto de metal na boca a cada desilusão, de ter que saber desesperadamente que devo representar algo que não sou, o nojo que sentia de mim por ter que fazer isso ou de fingir ser indiferente à destruição alheia, de não poder impedir a discrepância da vida.

E me perguntava nessas caminhadas como foram para todos que sentiram uma angústia semelhante dentro de seus corpos, em suas maneiras tão particulares. Do desejo infindo do apagamento. Dia, noite, chuva, sol. Tudo inútil pela falta de ambição no desejo maior de parar de existir. E parava de andar e olhava para o resto da rua por largos minutos, ansiando o que aconteceria nos passos seguintes. O corpo, sua máquina vibrante e tão silenciosa, gritando pensamentos e escurecendo caminhos para confirmar o que já sabíamos desde o entardecer de todos os dias. A percepção de uma parte de você proporciona uma liberdade falsa e esmagadora de sonhos. E quando nos vemos a primeira vez com então vinte e tanto anos, depois do fim de um casamento infeliz, completamente infeliz. Aquela separação mental que dá a liberdade, o marco zero, a possibilidade de conseguir de se virar para trás e enxergar quem você era quando, muito tempo atrás, ainda moleque, vislumbrava o instante mágico do tempo em que agora se encontra. Encontros e desencontros. E virei para trás e olhei para o passado, triste – obviamente – e movido pelas circunstâncias do momento. Imaginar como os olhares dos dois se encontraram, um deles cheio de vida, o outro um pouco mais sem cor. E o mais velho viu o questionamento ferrenho no olhar do mais novo: afinal, quem você se tornou, o que foi capaz de fazer em vida? E o velho teria sido obrigado a responder, ainda sem pensar em sair correndo: Nada, só queria subir para uma nuvem errática, mas andei por toda parte, escrevi livros sobre o que vi e senti, compus canções inúteis, levantei infinitas perguntas para mim e para diversas pessoas, mas ainda não consegui chegar naquela nuvem. Fecho os olhos. A nuvem parece um lugar impossível pra mim. Um lugar tão pequeno, mas enorme ao mesmo tempo. Afinal, qual é o problema? Se é que existe um problema. Queria poder dizer “amanhã partirei”, e compreenderia nisso uma mudança, uma ruptura com o que era e o que serei. Por que desejo algo tão simples aos olhos alheios? Volto a andar, queria caminhar até amanhecer, porque se penso um pouco sou obrigado a parar de andar. Não é toda a dor que pode ser aniquilada. Juro, eu tentei, tentei muito afastar esses caminhos, essas dores, tentei afastar essas coisas de mim.

Lembro da ladeira que subia todo dia pra ir trabalhar. Do ruído interno que a dor me causava nas pernas. As subidas que se você parar para descansar será incapaz de continuar. Uma parada de pernas que te atinge rápido e com força que então fica difícil respirar. E agora, nas caminhadas nas noites escuras e disformes são a única forma de salvação, a noite que você pode atravessar dançando do jeito que desejar, como em câmera lenta, igual Jesus teria feito na água, ou dentro da imaginação fantástica, no qual há uma ilha onde vive uma mulher que sabe ir até a nuvem; e se desloca pela água escura de uma maneira bonita, pomposa e esguia. Aquele dia da ladeira. Lembro que ia chover. Pra mim sempre vai chover. E escrevi num caderno: É a mesma chuva que costumava cair na minha infância, sempre antes de dormir. Ela cai sobre mim quando vou caminhar, ela cai sobre mim quando olho o entardecer, ela cai sobre mim quando volto do trabalho, ela cai sobre mim em meu quarto. E então a mulher que sabe o caminho para a nuvem aponta o dedo na direção da chuva e some. Tudo some. Não é isso que estou querendo sentir, mas acho que posso dizer que eu tenho um problema. Pois eu devia estar em casa, numa tristeza diferente dessa, mas não consigo me acomodar, pois a cama e a visão que tenho das paredes se tornam uma prisão da minha mente, tudo se apequena e por isso saía todas as noites. A nuvem. Acho que a nuvem é o nome que dou para o esquecimento. A mulher é aquela que vai me levar um dia para o esquecimento de mim, na rua de chão batido e não terei vergonha de não olhar pra trás quando esse dia chegar, que essa mudança atue de forma tão absoluta como a criança que risca o desenho que ela mesma fez, que no fim não se possa mais ouvir nada no tão sonhado esquecimento, a não ser o frágil som da ausência. Outros buscam a mudança, do mesmo modo que a busquei desesperadamente. Querem mudar a si mesmos – muitas vezes em vão – , mas para conseguir isso é preciso atravessar a noite, penetrar no pensamento dessas caminhadas e talvez deixar que a chuva modifique seus corpos e limpe as suas almas; deixar que a chuva os reeduque para coisas simples.

Não parece fazer muito sentido, eu sei, mas caminhar todas as noites também é se perder; seguir em frente quando mal se pode enxergar as próprias ideias: sentir, existir, pensar, e ainda assim ser invisível aos outros. Eu ainda sou invisível aos outros e no começo eu sofri por isso. Fechava os olhos ao pensar nisso e saía da rua em que estava para pegar um daqueles caminhos de pequenas vilas. Conheço o caminho e sei onde preciso virar; memorizei o caminho ao longo dos anos. Minha nuvem no chão. O amor não é infinito, pensei. Nada é infinito. Essa era a verdade. A eternidade veio abaixo e de repente a repulsa que senti me esvaziou para o que importava. O que importava, nesse caso, era andar rápido e só isso, sem olhar para trás, como fez o meu eu mais jovem, e encarar o próprio olhar do outro lado. Abrir os olhos deveria ser um ato de prudência, mas encarar a escuridão é extenuante. Abertos. Fechados. Tudo a mesma merda, penso, e uma melancolia vai se acumulando em mim, quando acontece alguma coisa contra a qual nada posso fazer. Penso de novo no passado. Consigo vê-lo, é claro, e não consigo decifrar o seu olhar, porque esqueci o que eu era. “Ei, você, caralho, olhe para cá!”, é como reajo ao desacontecimento.

A estranheza, o divino, o andar pela noite. Refletir sobre uma vida cheia de vazios. Vazios que se descobrem em algo, na permanência da nuvem. O reino. Sim, definitivamente o reino onde nada mais inútil é realmente necessário, porque aqui desse lado da rua tudo é invisível aos olhos. Isso me lembrou que recentemente entrei numa igreja. Não lembro exatamente o que vestia, mas era algo simples. Inclinei meus olhos para a imagem gigante de Jesus na cruz, e admiti sem hesitar que concordava com suas palavras, seus ditos políticos. Não sua ideia religiosa, como todos ali presentes faziam. O resultado é constrangimento e desgosto pela deturpação de sua palavra, de seu ideal. Eu me perguntava a cada minuto o que estava fazendo ali, por que permaneci tantos anos em dúvida. Permaneci na espera de ter uma resposta para aliviar a dor. Sim, foi o que fiz na minha juventude. E eram o que eles faziam ali naquele momento. Mas a completude não vem dali, mas da nuvem. Sim. Eu tenho certeza que é daquela pequena nuvem. Penso muito nisso quando estou sozinho, quando ouço outras pessoas conversando nos apartamentos vizinhos, os passos, as portas se abrindo e fechando. As palavras perdidas são tempestades secas, que desdobram a solidão diante de tudo. As pedras, o sorriso, o olhar, a grama, os olhos, tudo. Não se percebe o tempo no qual elas se perdem para vivar uma outra coisa, uma malha metálica que protege a facada, o sentido. E tudo se some na rotina. E não estamos bem, mas representamos tudo quando perguntados. E o mundo se choca com sua nuvem coroada, com sua boca que solta a palavra automática. Estilhaços de algo que inventamos. E tudo é silêncio na rua. Sempre foi, mesmo de dia, e sabemos disso. Tudo sempre esteve em silêncio, não percebe? E tudo piora com o tempo, exceto quando estamos com aqueles que nos entendem sem o dedo severo do julgamento, poder conversar sobre qualquer coisa na certeza de não ter os anos de prisão contados na mente. Ler sobre alguma história da dinastia Ming e tirar alguma sabedoria, submergir na arte que julgo perfeita dentro de sua imperfeição, ter como saciar dentro de mim e dos que me cercam da necessidade de unir beleza e harmonia ao mesmo tempo. Igrejas, templos, sua casa, a nuvem, a rua… tudo isso com suas saídas de emergência. E no final o grito: “eu estou bem, não se preocupem”. Sorrio e sigo para qualquer lugar. É o que fiz, é o que faço até minha fuga para um próximo entardecer. E volto a lembrar da ladeira, de como a subia e a descia na volta do trabalho. A casa que morei sumia lentamente de vista. Não sei por que sou desse jeito, não sei porque sinto essas coisas e também não sei porque questiono essas coisas, não sei se é comum, não sei o que é raro, se os outros sentem a mesma coisa, ou se é algo que acontece somente a mim, mas para ser bem franco, é insuportável. Sim. Insuportável. Que o mundo não seja pleno, que o mundo não seja belo e completo, que talvez eu deva decidir me afastar disso tudo e voar para a nuvem. Sim, é o que eu quero. Que se quiser fazer alguma coisa da minha vida terei de abandonar tudo que me pertence – mas nada me pertence –, tudo que sei fazer e tudo que conheço; abandonar essas pessoas na igreja, as pessoas bebendo nos bares e conversando sobre o que elas não conhecem; dar-lhes minha saudação final, íntima, meu adeus para sempre. E se tenho que fazer isso para poder evoluir então que sentido realmente faz? Qual?

Uma das Morellianas d’O Jogo da Amarelinha me fez isso, os homens que largaram o túnel no Monte Brasco, deixaram tudo para trás e foram se agarrar à poesia do ato, a filosofia, tudo – porque isso lhe parecia tão atraente, tão sábio, tão belo e necessário; não queriam elevar-se, queriam ter o que eles apenas tinham. Queriam cruzar a fronteira para dar em qualquer lugar. Assim, quando surgiu a oportunidade ele fugiram do túnel e foram cavando até saírem na casa de um professor. E nesse capítulo em especial, fica claro que os operários que estavam do outro lado deveriam ter seguido esse exemplo em vez de se obstinarem em um túnel inexistente, como é o caso de tantos poetas, músicos, pintores, seres que caminham na madrugada, com mais de metade do corpo para fora de seu próprio corpo, a altas horas da noite. Wishful thinking. É notório perceber que esse livro influenciou muito a minha vida, embora eu jamais – até agora – tenha tomado consciência plena disso. É claro que tem algo de muito errado nas conclusões de Morelli. É óbvio para todos que leram, e para mim também, mas nunca cheguei a descobrir qual é o erro, pois de algum modo ele também está certo. Sim, definitivamente. Mas tenho certeza que nada no mundo me faria ter o mesmo destino que os operários do Monte Brasco, jamais terminaria saindo em algum lugar que não fosse realmente calculado. Não. Nada desesperado – a não ser dentro de mim mesmo –, no meio dos oceanos de gente dos calçadões, ou dentro de um escritório entre cegos e surdos, e é possível que me falte a coragem necessária e tão arrebatadora, tampouco faria como os operários do Brasco e me tornaria uma outra pessoa, feliz. Sim, talvez feliz. Poder responder ao meu outro eu, tentando reunir tudo dentro de meu corpo, os dois lados ao mesmo tempo – e por que não? –, juntando o eu a meu outro eu, aquele que fui e aquele que poderia ter sido se em algum momento eu tivesse me entregado finalmente. Numa obsessão de tentar fundi-los nessa única pessoa que sou, mas não consigo, não posso fazer isso porque na realidade não há espaço suficiente. E por que desejo a nuvem? Não, não. Sei que posso acabar partindo ao meio, igual sempre aconteceu quando tentei fazer isso. Enquanto for esse que sou agora, haverei eternamente de sair caminhando pela noite como fiz, esquecido por todos, esquecido por mim mesmo, com a escuridão se infiltrando em meus olhos, em meus dedos, em minha vida, em minha nuvem tão sonhada. Sim, eu sei disso. E naquela noite as nuvens se separaram, correram em diversas direções e em grande velocidade como se algo realmente importante estivesse prestes a acontecer. Não era nada, mas sempre queremos que seja algo. Amor, sorriso, a rua, a nuvem, as pessoas, o entardecer, o andar, o eu, o outro eu, você, ela, ele. Qualquer coisa. Sinto a cisão entre o que sou, o que fui e o que serei. Dói.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

55.

PENSAMENTOS PARA NÃO ESCREVER

Durante muito tempo tentei entender o processo da vida. Em essência não encontrei algo que fosse muito diferente dos outros animais. Alguns vivem inconscientes, como se nada soubessem, lançados estupidamente através das coisas e dos seres; outros percebem apenas pequenos intervalos, leves interlúdios, mas se divertem com isso; alguns vivem precariamente o mesmo percurso, porque questionam e não se limitam a aceitar o modo de vida que leva o primeiro exemplo que mencionei. A maioria não pensa além do que pode ver, alguns – arrisco-me a dizer – nem sabem que estão vivos. O cachorro se espoja na sombra e lá fica, o homem faz a mesma coisa com o pensamento, com a vida, com suas diversas complexidades. Ninguém faz muita coisa. O homem ama o sucesso, a glória, a imortalidade, mas não em campo abstrato. Querem participar daquilo no momento do ato. Não participar implica e mais uma letargia.

Sempre pensei que isso um dia pudesse se tornar mais frequente, tantas perguntas a respeito do homem que não enxerga, que é limítrofe porque lhe foi dada a consciência. Muitas vezes o resultado termina na religião, de Roma ao Tibete, repugno todas com a força de meu coração, pois todos dentro do absurdo, do dogma, tentam se libertar de nossa real e verdadeira condição: a de animais espojados na sombra. Todos nós, dentro da loucura, tentamos negar o que a vida escancaradamente nos mostra. Abaixamos a cabeça sem pensar no ato que isso implica, no anseio de não querer saber, do martírio e a mágoa que isso pode nos causar.

Dói pensar que quase todos sejam assim, mas não culpo os animais, culpo o homem, que tem a capacidade de atravessar o palco e falar alguma coisa, mas não fala nada. Apenas segue os da frente como um rebanho, apenas contentes pela suposta solenidade por que passam. Brincamos de existir, cachorros e homens, sem diferença aparente, ambos místicos da precisa hora, com o corpo e a dor, a presença fantástica do mistério da morte. Vazios, todos vazios.

Talvez o místico seja eu, por falar deles desse jeito pouco explicativo, de ser incapaz de dar a este texto as palavras mais claras. Aqui onde estou agora, no trabalho, sinto essas coisas de perto, como se fosse um pequeno pedaço da humanidade. Serei sempre assim, um empregado que traça na caneta jogada ao acaso todo um maldito universo, servo de minhas próprias sensações, egoísta e pouco funcional. Serei sempre um não sei o quê. Talvez meus gestos sejam como o espojo das maneiras que todos seguem até que a festa acabe. E lá estou eu, cumprindo porcamente o meu papel, no final da rua sem saída.

Roberto Lorembrant
Do livro O Girassol Mecânico

191.

GRANDE SINFONIA

Às vezes, quando volto do trabalho, já é muito tarde. Foi agora dias destes, um frio de doer as mãos, desses que a luz gélida escorre do céu e deixa tudo acinzentado. Quando está muito frio, como aquele dia, tem-se até vontade de correr, de ouvir o ranger dos sapatos nas calçadas numa noite fria de junho. As ruas ficam escuras mais cedo, lavradas por um outono diferente de todos os outros, que me engole e sufoca – cada cair de folhas, cada tristeza, sem me devolver absolutamente nada.

Antigamente, quando não conseguia dormir ou não queria, vestia meu casaco e ia com meu caderno e lápis para a praça mais próxima – para escrever ou compor – e olhava as árvores com distinta curiosidade. Era tudo escuro como agora, apenas poucas luzes dividiam o aqui e o ali. Sou incapaz de antever a tristeza chegando, é como um vento gélido que lhe atinge com tal força que o deixa tão rijo de frio, que poderia até berrar com o vento. Frio que corta como uma faca os nossos corpos. Quando volto pra casa tarde, em dias frios, sinto o vento me queimar a cara.

Antigamente, era um pouco diferente. Eu saía desenganado, descendo as ladeiras em busca das pracinhas onde pudesse beber ou ler. Sempre preferi caminhar sozinho. Não preciso – e nunca precisei – de companhia. Todos podem me olhar de longe, pra mim não tem problema algum nisso. Só quero fazer parte da noite sem ser incomodado. O que eu quero é ser a luz oculta da noite como condição na qual eu possa afundar e depois me dissolver, quero que a escuridão me infeste e me faça flutuar para deixar de ser tão visível, ou tão importante como a noite me possa parecer. Quero romper os limites do meu corpo e do não-corpo, não saber qual é qual. É o que faço ao caminhar nas noites em que volto do trabalho, quando estou farto de minha própria consciência, do gosto terroso que sinto na boca ao ter que me representar todos os dias. Aquela vontade de morrer que tive quando mais jovem, a vontade que era tanta e vazava pelas minhas fissuras onde a vida não agia como deveria.

Pergunto-me todos os dias: os que se sentiram atraídos e foram dominados pela arte sentiram isso? Aquele grande deserto de si mesmo. Teria sido assim pra Beethoven, Fernando Pessoa, Saint-Exupèry, Drummond? Quantos mais foram assim? Será que eles queriam se apagar num deserto que nem eu? O deserto de pedra que os fez pensar com mais ambição ou com uma vontade extremamente superior e, eu aqui, inquieto com tanto frio. Talvez eu jamais passe disso, de um andante que escreve ou compõe para não se sentir morto. Porém, sempre anseio, com uma atração absurda, como a que sinto agora, com os braços erguidos como as asas de um avião. Sinto o vento e um grande e tenebroso silêncio sob minha cabeça, meus sentimentos, meus pensamentos e assim continuo caminhando para me lembrar que ainda existo. Para conseguir perceber como o limite entre corpo e não-corpo é infinito e capaz de proporcionar uma liberdade, mesmo que provisória, esmagadora, da mesma forma que os desertos de nós mesmos. Como terá sido com Pessoa? Quando escreveu sobre os lugares que nunca viu, os desertos que nunca esteve fisicamente. Aquela separação metafísica que lhe deu a liberdade, o marco zero. Senti isso uma vez só, foi num dia frio como este, muito tempo atrás. Vislumbrei um instante do tempo em que me encontrava comigo mesmo, voltado ao passado. Eram duas pessoas, eu e meu eu do passado. Dois olhares que se cruzaram mornos, um mais desbotado que o outro. O mais velho viu a pergunta no semblante do mais novo: O que você é? Quem você se tornou? O que foi capaz de realizar? O velho disse que nada, embora tivesse passado por quase todas as dores sentimentais do mundo.

Era hora de flutuar na escuridão da volta do trabalho. O deserto é tão grande e tão vazio. VAZIO. Esse grande vazio que sempre me atraiu. Certa vez, Helena me perguntou como uma pessoa tão culta, com tanta “bagagem” poderia simplesmente desejar o nada. Por que desejo o nada? Schumann foi morto pela loucura, Beethoven desafiou deus com um lançar de punho aos céus, momentos antes de morrer… e por que eu desejaria que a manhã finalmente chegasse? Não era isso que queriam, mas morreram. Disso tenho completa certeza. Não quero ficar nesta noite pra sempre. Só quero ficar assim nas ocasiões em que sentir a necessidade de ser um vulto, até que meu corpo volte a ser como uma ave que voa estática no céu, procurando por uma alma.

Há chuva e frio se armando. É o mesmo que costumava acontecer na minha fase mais jovem, sempre acontecia na hora de dormir. A chuva caía como uma neblina em meus pensamentos, daquelas que nos faz sentir dor na ponta dos dedos. Será que todos sentiram isso alguma vez? Nunca consegui achar um porto onde pudesse finalmente esquecer tudo e viver em paz. “Quero o esquecimento”, disse uma vez para Helena. Muitos fazem isso, buscam o esquecimento por razões diversas que não cabe julgar ou discutir neste momento. Porém, para realmente encontrar esse esquecimento, devemos permitir que a vida nos estrague e apague em seguida, como uma borracha usada com desespero num dia de prova e que atue de forma tão precisa que no fim não se possa ouvir mais nada além de um vazio. Há quem busque a mudança – inútil, a meu ver – e adentre os seus próprios desertos na hora de voltar pra casa, deixar que o vento gélido sopre mais forte e limpe suas almas, os reeduque para coisas tão simples. Um viva para nós, os mergulhadores de nossos desertos, todos ansiando por um pouco mais de vida, de experiência ou, no fim, aquela coragem de querer mudar o que é impossível.

Sempre nos perdemos e depois descobrimos – ou aprendemos – que não há nada a se temer. Ousamos perder para depois nos reencontrarmos, mesmo que após a morte. Ter a coragem pra isso e sem saber se um dia acordaremos, essa é missão do artista ou daqueles que procuram a liberdade, a verdade de uma entrega sentimental. Como é bom este momento, por mais breve que seja, onde o peso de Atlas simplesmente cessa. Lembro-me de Rimbaud, que sumiu ainda jovem da poesia e reapareceu anos depois. Virou outra pessoa, com outras qualidades. Je est un autre, Je est un autre. “Eu é um outro.” Rimbaud fez isso de propósito, claro que o tempo verbal da frase está errado, mas ele quis confrontar seu passado e agora o presente na primeira e terceira pessoa. Um objeto que precisou sumir, se perder e depois aparecer “um outro”. Será que faz sentido? Pode até fazer, pois caminhar na noite, na volta do trabalho, também é uma maneira de se perder, seguir em frente quando mal se pode enxergar a si mesmo. Existir, pensar, falar, sentir e, mesmo assim, ser invisível aos outros, e pior: a si mesmo.

Fecho os olhos ao andar, isso me faz bem. Ao chegar próximo de casa, sinto o hálito das árvores, o terreno sobe um pouco e ando mais devagar. Qual será a verdade de tudo? Pensar nisso me desanima e me faz ter a repulsa de um vento malignamente frio que pode bater a qualquer momento e faz tudo que você idealizou definhar nas mãos e soprar para longe de sua mente como um monte de poeira cósmica. Que importa agora? Em algum momento da vida temos que olhar para trás, como fiz outrora, nos encararmos em outra época. Abrir ou fechar os olhos – neste caso – não faz mais diferença nenhuma, sempre veremos a mesma coisa. Aberto, fechado, cerrado, é tudo a mesma tolice, pelo menos neste momento. Lembrome de quando saía em busca dessas praças, gritava com os pássaros que estavam descansando nas árvores. Claro que não respondiam. Olhava timidamente meus sapatos e pensava nos livros que li. Pensava em Li Po e na Canção da Terra de Mahler. Lia na poesia de Li Po um céu como eu jamais havia sequer imaginado. Isso tinha a ver com o modo como via a vida, mas o que importa? Procurei ler os ocidentais, principalmente nos vagões de metrô, sem me preocupar em qual estação descer. De todos que conhecia, Helena era a única que lia os mesmos livros que eu. Pra ela não adiantava esconder a leitura deles, mas não os discutíamos. Ninguém sabia, além dela, que entrava discretamente nas igrejas em busca de deus. Era aquela estranheza que passei por muitos anos procurando, o Belo que nunca existiu, tudo que era diferente de minha vida. Queria ser transportado, mesmo que fosse para lugar nenhum. Mas não havia lugar pra ir, era invisível pra mim. A última vez que entrei numa igreja, passei o dia inteiro dentro dela, sentado no banco do fundo, com os olhos voltados para o altar. Foi esquisito, pois nunca fui religioso. Tentei encontrar deus em todos os lugares, tentei sentir a força que muitos dizem ter, mas não senti nada. O resultado foi constrangimento e um leve desgosto. Por que permaneci tanto tempo esperando pelo que não existe? Espero pelo dia em que me tornarei finalmente completo. Tudo só piora e lembro-me quando Helena me dizia para não gastar muito os olhos lendo livros. Deveria ter lido mais de Li Po. Queria ter sido Gautama, que conseguiu unir a necessidade de harmonia e beleza numa só saída. Por que sou assim? Não sei se é comum e se outros sentem a mesma coisa que eu. É insuportável em alguns momentos. Teria que deixar tudo pra trás e voltar “um outro”? Acho que é tarde demais pra isso. Já ultrapassei a barreira e seria incapaz de voltar. Queria ter tido a coragem de Schumann ao jogar-se no rio gelado, indo para o fundo, nadando cada vez mais forte, nadando mais forte que a vontade de viver.

Uma volta pra casa tarde da noite pode influenciar muita coisa em nossas vidas embora, algumas vezes, não tenhamos consciência disso. Em momentos de fraqueza – que recorrentemente tenho – sempre nos falta aquela coragem, a coragem que Rimbaud teve, bendito traficante de armas. Tento reunir tudo desses gigantes em mim, juntando o que fui e o que poderia ser. Não consigo, não há espaço pra tanto. Porém, tenho em mente que sempre caminharei pensando nestas coisas, voltando pra casa, vendo do outro lado da rua o eu que fui num passado não muito distante, quase esquecido, com a noite entrando em minhas frestas, com os braços abertos, andando de olhos fechados. Antes de entrar em casa olho pra cima, o céu continua acinzentado, vejo a luz da lua tentando bater na terra, vejo minha sombra no chão e sinto aquela coisa novamente do corpo e não-corpo. Dói muito.

Roberto Lorembrant
Do livro Elegia para agosto

12.

A opinião não era unanime. Alguns achavam que deus escrevia errado de propósito, outros disseram que ele não sabia escrever e que entortava as linhas por pura imprudência. Afinal, o que importaria, já que deus avançou o sinal vermelho? Não caberia a nós, meros mortais, dar-lhe um caderno para aprender a escrever e também em manter a linha reta. O suicídio é uma vitória de quem? Também discutíramos horas, alguns achavam que a vitória era de deus, supondo ele ser sádico. Outros creditavam a vitória ao que se mata, uma minoria não creditara a vitória a ninguém. A imprudência de ambos – deus e dos homens – é que torna a vida temerária, cada dia mais cara e excessiva. Seus caminhos, suas palavras tortas e incompreensíveis que fodem com a emoção. Não sabemos ler ou ele não sabe escrever? Os homens sobrevivem, saem feridos e os que ficaram que de alguma forma ainda sorriem, todos contam seus causos como se fossem milagres – e talvez até sejam – e a religião trata de transformar isso em sua própria emanação. O ódio, o riso, o amor, a alegria, seus caminhos também tortos. Tudo virou uma opinião tão torta quanto as linhas de deus. A opinião não era unanime, nunca foi. Alguns acham que deus estava brincando, outros que ele pisou num monte de merda e escorregou e bateu de cabeça. Alguns mais sábios diziam que depende do ponto de vista. De fato, dependeria do ponto de vista, dos olhos entortados ao qual fomos fielmente forjados. Por quem? Não importa. Um dia eu falei com deus, mas ele não respondeu, talvez seja surdo, mas essa é outra hipótese ainda não discutida. Nesse dia eu estava numa igreja, aliás, o último dia que entrei numa igreja. E já que existem tantas igrejas no mundo eu presumi que ele estivesse muito ocupado – salvo a hipótese da surdez, claro! – porque afinal, até nós humanos nos distraímos ou nos perdemos quando muitos nos chamam ao mesmo tempo. No lugar de deus talvez fizesse a mesma coisa e não responderia ninguém, sairia porta afora caminhando sem rumo, perplexo, tentando entender a incompreensão daqueles que não acreditam em mim. Tentar entender de alguma maneira a falta de comunicação que eu tenho com os outros, nessa espécie de autismo sabido e sem solução. Deus está sozinho? Também seria uma discussão. Se eu estou, por que ele também não poderia? Porque estar só num mundo habitado por tantos outros, com nossas solidões que se comunicam em diversos níveis, sim, isso seria uma declaração de existência, sua declaração do brutal, da eminência de que a opinião nunca é unanime, de como assistimos as mixórdias de deus ou de como ele assiste as nossas. De ver Whitman metido num manicômio, ou qualquer outro Twain na sarjeta ou algum Bukowski metido num puteiro. Tudo seria um ponto de vista que não se converteria num silêncio guardado com paz, com seu triunfo cego e imediato de pensar ser algo, de fazer parte de algo, dessa fodida e talvez até deliciosa falta de importância coletiva. Se pessoas assim podem guardar tantos pensamentos, heresias e sentimentos, podemos supor que todos estão inacreditavelmente sós, rodeados por questionadores e deuses e vidros sujos procurando algo, alguma coisa. A opinião não era unanime. Alguns achavam que os homens eram animais dramáticos capazes de internalizar o que os outros bichos manifestam em outros tipos de linhas, mais retas, disseram alguns, outras mais tortas que as de deus, mas visíveis. A objetividade já não era mais um cerne a ser discutido, já que a poesia e filosofia tomaram conta da preciosa comédia que é a solidão, com seus abraços falsos, seus cumprimentos tão diplomáticos quanto um adido suíço. Tudo era tão barato quanto qualquer pensamento. Somente esse otimismo que tiramos do cu poderia ser algo para dissimular a vida e até mesmo deus, os contatos com o desconhecido como as folhas que se batem no ar antes de chegarem ao chão. Tudo isso poderia ser o quê? Céu ou chão? Homem e sua visão limitada ou deus? E absurdamos a vida assim, transformando o que apenas deveria ser dentro do ser em algo violento que saltam aos olhos do próximo que pisam errado na borda, que esticam a linha daqueles que não sabem escrever. O amor, uma elegia que tão logo verdade, deixa de ser verdade. E o que é verdade? A opinião não era unanime. E a consciência de ser supor algo já estava tão longe e tão perto como qualquer solidão, no cinema, na biblioteca, no bar ou no puteiro. Tudo era paradoxalmente o cúmulo das solidões acompanhadas de outras pessoas também solitárias, todos alheios a todos. A opinião não era unanime sobre deus, ainda. Ainda não se chegaria a um consenso sobre isso, porque se conhecendo a outra parte, da qual nos aproximamos ou repelimos com nojo, a verdade jamais poderá ser alcançada, porque não cabe a nós o julgamento do que pode ser ou do que não pode ser. É o reconhecimento – sem ter o reconhecimento – de nosso erro. Sua lembrança, sua redação em linhas tortas que ameaça e fode a memória.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

11.

E nos vestimos inutilmente para as ocasiões. É como querer vestir o pôr do sol, com deus e suas loucuras, suas nuvens de pedra, sua roupa de vidro. E não haverá voz para o discurso de como descreveremos as coisas, suas cidadelas não nomeadas. E nos vestiremos inutilmente para evocar a não-evocação, seu horizonte não alinhado, sua êxtase do nada. Diremos tantas coisas e não diremos nada. NADA. Apátridas das noites e suas sombras. Por que enrolar o simples no discurso, as terras sem nome, as crianças sem rostos, o silêncio que verdeja nos adeuses e nos destinos. Aliás, qualquer destino. E nos vestiremos inutilmente para as ocasiões, para as festas sem nome, para os reis, para as rainhas, cada um seguindo sua própria surdez. O amanhã postergado de rosas, abismos e esperanças.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

10.

O silêncio perdura em meio ao barulho. Seu caos exposto na rocha, destruída aos poucos e que celebra nosso silêncio. Dói. O sentimento que perfura a pele exposta e contamina o sangue com nossas crises, nossos crimes, nossos segredos e nossas fugas. O silêncio imprime seu labirinto e lá trás, na infância, o que se grava na pele, na rocha, permanece. Aprender que viver inacabado não pode ser tão ruim assim, constrangido e nas sombras. Sim, as pessoas fazem isso e não admitem. E para quem nasceu destinado à arte, à tristeza, às lidas do ordinário. Essas coisas trazem seu veneno nos livros, no aparte do questionamento e extravia-se – algumas poucas vezes – ao autoengano, sua fuga desejada sem saber realmente o quê. A mão que sente a pedra áspera, sua pele. Um mundo que sempre será estranho.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

Para Andrea

Juca, minha querida. É bem provável que algumas pessoas agora se ocupem de tudo que você fez pelos outros sem pedir nada em troca. Costuma acontecer nessas horas: o corpo esfria e os curiosos se aquecem com a curiosidade. Muita gente que nem sabe quem você foi , todos dirão que tua falta será de uma dor tremenda, que você isso, que você aquilo. Você será citada, Juca, indexada em alguma coisa, em alguma citação. Qualquer coisa, qualquer coisa. Cairá no jardim de sua memória várias lembranças. Eu tenho certeza que você acharia tudo isso ridículo, vindo de pessoas que nem quiseram te conhecer, assim como também sei – dentro de mim – o quanto é ridículo essa carta que escrevo pra você. Tenho essa mania, eu só costumo escrever cartas – que nunca envio – para as pessoas queridas que partiram sem eu poder me despedir. Que assim seja, pois não há melhor hora para ser ridículo, para ser miserável, para ser alguma coisa que te julgarão depois. Como você mesma diria: foda-se. Pois sei bem o tempo que você gastou questionando – do mesmo jeito que eu questionei – o silêncio, as pessoas que agora querem saber quem é você, que você foi. Irônico, não? O silêncio agora é seu, Juca. Mas não é disso que eu queria falar nessa primeira e última carta. Não, não. Quero falar sobre sua poesia, naquelas conversas magras que tivemos, cada palavra dissecada – por mim – para egoistamente poder escrever depois, porque minha escrita tem um pouco do que você me contou, você sabe disso e farei seu pensamento aos nossos amigos próximos que não aceitam sua partida. Teria ter tido mais convívio. Convívio do qual fujo e nos entendíamos porque tu eras assim, parecida comigo, mas eu não quero ficar aqui interpretando o que você disse ou que não disse. A palavra apenas fica, pois a palavra pra nós sempre foi a coisa mais fácil a qual nos dedicamos. E haverá sempre aquela página pesada, incompreendida, tão densa quanto a atenção que você deu às pessoas que realmente precisavam de ajuda, o diálogo, a generosidade. A pessoa que dizia pra gente que ainda era cedo pra desistir. Como assim, Juca? Como assim sair da mesa tão cedo? Acho que entendo. Ter desconforto interno, mas ainda sim trazer conforto ao próximo. Atrevo-me a dizer que essa é a sina daqueles que podem trazer algo de decente ao mundo. Artistas ou não-artistas, isso não importa. Nunca importou. Guardarei suas palavras comigo, sempre.

22 de janeiro de 2018

R.

9.

Chamaram-me de melindroso, de homem inacabado. Talvez seja verdade, pois dentro dessa morte tudo é provisório e não envelhece, tudo está por acabar e temos que ter a pressa que esquecemos ao vestir a máscara, ao habitar o ambiente hostil. A única opção possível e de verdadeira na prisão é chorar. Das mesmas lágrimas que são pedras pontiagudas cortando minha pele, dos olhos que se apertam e convulsionam a próxima arfada descompassada junto à dor que é ser inacabado. Sim, inacabado porque a dor não faz mais distinção entre dia e noite. E restará uma memória disso que virará vidro, igual todas as memórias falíveis que pedem a palavra. Da mulher que amei no passado e que foi por muito tempo minha rocha líquida na hora precisa em que tão inacabado fui. Não conseguia fazer o pedido certo ao seu deus, seu deus prematuro e seco. As palavras se vão, a as palavras se vão dentro do combate dos dias. Você sabe disso, porque a palavra me vem na voz de qualquer pessoa, não importa quem diga o contrário.

Sim, é exatamente isso que penso. Portanto posso ser melindroso no relato em que as pessoas tomam para si o partido de suas ideias, de suas filosofias, das coisas triviais, a chuva, o sol, a rejeição, as pedras, o amor, qualquer coisa. Tudo longe de você, mas não de mim. Eu, o melindroso amante das janelas, do inútil, do esquecido. E tudo isso pra ti será mais uma forma de agonia. Pra mim apenas um relato do que sinto, a voz dos covardes que falam enrolado para não serem entendidos, por vergonha, igual fui tantas vezes.

E assim o eco termina com a morte da palavra para seu renascimento. Antagônico como os seres inacabados, da morte esvaziada que grita nosso nome na hora em que a lembrança trinca. As pedras pontiagudas. O grito seco. O tempo. O calor. A palavra. A sorte. A cegueira. O amor. A ausência. Pedras que se chocam melindrosamente. Não poderia ser diferente aos que gravitam sentimento.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

8.

O passado muda porque a memória muda, mas não se muda o sentimento ao lembrar naquele instante o corpo e as lágrimas e a espera de sua eterna repetição. O apagamento do passado, a mudança de perspectiva é que trazem essa mutação de não se alterar o sentimento. Muda-se a história, não o sentimento. E no meio disso podemos salvar algumas memórias do esquecimento para que o tempo não o deixe simplesmente morrer. O amor, o perdão, qualquer coisa que podemos adiar ao esquecer, porque a vitória é mais doce ao que nunca venceu e a compreensão da memória requer intenso esquecimento.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro