Exata inexatidão

a exata inexatidão com que
erramos a interpretação das coisas
de como somos julgados sem a real
percepção do que sentimos
como se tudo que sentimos não
saíssem de fato da gente
mas essa máquina inexata

as palavras duras que ouvimos
em troca
facas afiadas que furam a pele
a pedra jogada
o ferro quente que toca o corpo
seu caco de vidro que vira arma

a inexatidão com que me interpretam
e sei que também não sou fácil
quando expresso a dor
quando expresso o ódio
e até mesmo o amor

acusam-me de devastação
e talvez estejam certos
porque também atiro
pedras
mas apenas em mim
ou coisas que uso para
poder criar
para poder sobreviver
aos adjetivos
aos substantivos
aos verbos
e advérbios
que fincam suas bandeiras
e suas ideias que não
servirão de nada

em minha pele
em meus poemas
em meus pensamentos

para que tudo não faça sentido
[e não precisa fazer]
porque a inexatidão é exata
e a exatidão é inexata
num ponto que você achar
ótimo

porque o nome das coisas
a ideia das coisas
saem de fora para dentro
para que possamos ver
a porra da vida
dentro de sua palavra

e é isso

Horácio Pontes

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Poema sem nome [119]

a loucura
a tristeza
a superação
coisas simples
que são usadas
para definir alguma
grandeza que temos

esses loucos
esses tristes
esses seres que
superaram algo
nas porradas dos dias
são árvores que não dão
frutos

são suas frases sem sentido
que semeiam o vírus
o sentimento do abstrato
a loucura da grandeza
a tristeza do belo
a casa sem janelas
em que buscamos a fuga

a loucura da razão é tão
bela quanto a razão
da loucura?

não importa
e não importa
porque em qualquer
um desses cenários
remaremos contra o
tempo que resta

sua obscenidade
da visão
da tristeza
da alegria
da surdez

a superação de um
deus que não existe

[ímpio]

Horácio Pontes

Poema sem nome [118]

o amor é igual a deus
talvez exista
e por cada vez saber mais
que não sei nada
renuncio a qualquer bandeira
que traga uma definição formal
de sentimentos
e pedaços de nós se
desprendem para
os olhos dos outros
para as charnecas
do impossível

mas o amor passa a existir
quando lembramos os que
amamos
mas o que é amor
senão uma condição
uma ilha apenas sua?
o tempo que habitua
um padrão
uma palavra no dicionário
que define friamente um sentimento
sem se dar por isso

é como a literatura define
o que não pode ser definido
porque a palavra não alcança
a realidade de nossas ilhas
e de nossos divinos pareceres
sobre o nada

o amor
igual a deus
não precisa de tempo
para poder existir na ideia
do que supomos ter
no sentimento que ousamos
um dia catalogar
e o homem desafia esse
limite numa ânsia de pensar
de ter alma
e não apenas um
sentimento

Horácio Pontes

Memórias de através

o nascimento
a sobrevivência
e a morte

tudo soma-se a um monte
de memórias enterradas
em arquivos mortos
e seu destino se encerra
cumpre-se a vida
igual aos kamikazes
e seus poemas escritos
no improviso que a morte
faz ter
e deixamos de ser inocentes
temos maculada toda uma vida
para um certo questionamento
e ao jugo de questionamentos
em que a resposta simplesmente
não existe e mesmo sabendo disso
correremos atrás delas
como compete aos poetas
filósofos
e até alguns músicos

em vão

e nos submeteremos ao apreço da morte
mas a verdadeira revelia não é escrever na
horizontal mas sim se negar a dar o testemunho
disfarçar o cloreto que ameaça cair do olho

nascimento
sobrevivência
morte

a vida mistura essas merdas
e nos resta apesar de tudo
de sua dor
de seu abandono
de sua tortura
saber morrer com alguma humanidade

[dói]

Fim de através

e tudo começa pelo fim das coisas
com seus sequestros
com seus desenhos capturados
numa memória que insiste em falhar
e ainda sobra a história distorcida
com seus momentos líquidos
que vão de encontro ao chão
e na próxima vez que for solicitado
a rememoração traremos conosco
outro sequestro inútil
outra lembrança que insiste em falhar
porque alterar o que houve parecerá
impossível
mas não é
e acreditaremos nisso
como animais acuados
torturados

e surgirá a fuga da fuga
e seus assassinatos
sem soluções práticas que não
sejam o de começar novamente
pelo fim das coisas

Horácio Pontes

Missa

I – KYRIE

é tudo um embuste
e não veremos o sol
se esfarelar no poente
e nem ver o vento
cantar sua sinfonia
ao primeiro golpe
nas folhas esquecidas
das árvores

II – DIES IRAE

a luz?
a luz não existe mais
porque é tudo uma mentira
mas teremos ainda o calor
do concreto massacrando
a vida e o pensamento

[pés nus para a realidade]

III – CONCLUSIO

o embuste toma nova forma
a chuva
o sol
o vento
todos sem nome
todos partem rumo
ao que você achar
que é o outro embuste

a oração começa agora

Horácio Pontes

Cicatriz

o nascimento é uma cicatriz
não tenho dúvidas disso
e viver é enfiar o dedo
é impedir seu fechamento
porque a decisão fechará
precisamente em um dia
específico
e por isso
enfim
morremos de viver
e de não viver

Horácio Pontes

Fotografia [7]

olho para a fotografia
e tenho medo de me reconhecer
nela
uma fração do que pode ser o espelho
a lembrança resgatada
e que não pode ser vivida
o espelho muda
a fotografia muda
mesmo sem ter mudado
mas não adianta explicar isso
sem a contradição da própria
memória que preenche um vazio
uma memória perdida com qualquer
outra coisa
somos várias faces prontas para
serem substituídas
a falsidade involuntária
do que somos

o cinismo justificado
de virar a cara para uma
fotografia

Horácio Pontes

Certezas

as certezas cegam
até onde a vista pode ver
tão certas quanto sua
opacidade
que impedem de claro
enxergar o escuro
e na dúvida se armar
para a defesa de algo que
se perde para deixar de ser
vivo e talvez humano

a música que se ouve com emoção
o andante sostenuto do concerto para piano
de Robert Fuchs faz o esquecimento
virar uma não-certeza
a mesma que cega
mas que comove tudo aquilo
que pesa na porra do coração

e consome a ideia da invenção
do toque do pé no chão molhado
nós que somos as testemunhas
cegas de toda uma existência
sem ter existido
com certezas lutando com
não-certezas
indiferentes
até quando o dia
da última audição chegar
e como toda certeza
isso não fará a menor
importância

Horácio Pontes

Poema para Perséfone [11]

e se não sabia
não se sabia
de absolutamente nada
e tudo que nos foi
roubado
Perséfone
tudo que nos foi
incansavelmente tirado
dentro dessas chamas
solitárias que acendem
de vez em quando dentro
da gente
em meio a vidas que supusemos
ter

sim
ter
apenas ter
a ira com que
a vida nos agride
e recusar o fiado
da felicidade

e por fim vem
o castigo
a cirrose crônica
de imaginar
de pensar
de sonhar
por fim a libertação
das unhas sujas
da providência

Horácio Pontes

15.

Ser um anônimo nas ruas que não caminham é doloroso. A caminhada para uma violência de outras sensações, vidas, pessoas. Da minha filosofia que afunda terrenos para um pântano que nem eu mesmo sei sair. Acabo por representar o básico, o superficial, para tentar ser apenas mais um e tentar a aceitação do que um dia foi ou talvez possa ser uma vida. E o silêncio sai de minha boca. Sim, porque é preciso. É a única maneira de não perder a beleza infinita do alvorecer. E o anônimo dentro de mim pede a guerra e se cansa do mundo na primeira notícia ruim, porque o céu nessas cenas faz mal aos olhos. Sim, tenho certeza disso. E caminha pelas ruas um anônimo dentro de mim, e dói. Dói porque nunca tive um pai, mas sim mais um silêncio que ninguém sabia. Anônimos, apátridas, todos eles sabem o que são o derramamento de ausências, sons que não existem e a provável poesia disso.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

14.

Depois de tantos anos acabamos aprendendo alguma coisa com a ausência. Aprendi a escrever menos, aprendi a prestar mais atenção na cartografia dos olhos. Os sinais que deixamos – com o tempo – pra lá e não sabemos mais como interpretar. Tudo é, depois de anos, um catálogo, uma mancha nessa cartografia. E caímos para cima, do teto que encaramos antes do sono, nas linhas que machucam a parede e sopram seus tempos para uma fuga. O sonho que durou 10 anos em alguns minutos, da última tragada denunciada na aquarela que paira no ar. Sim, a ausência pode ser traduzida em bilhões de esferas e idiomas e ainda assim quando bate aos olhos, consciente, guarda uma beleza que só pode ser extraída da própria vida que queima.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro