Choldra

os materialistas
os liberais que não são liberais
os burgueses
os falsificadores
os golpistas
os cínicos
os vendidos
os que arrancam flores
os patrões
os desavisados
os isentos
os destruidores
os imberbes
os caguetas
os criadores do absurdo

e constatação perene
de que tudo vai se degenerar

Horácio Pontes

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Soma?

sua ideia
seu absurdo
sua lembrança
são cortinas rasgadas
expondo as linhas de luz
ao corpo

as maldições dadas
pela vida
o enjoo e a indecência
diária de viver

a foto na caixa cansada
o final de um livro

sabemos o resultado
disso

é a soma
que não soma
mas que tira

sua ideia
seu absurdo
sua lembrança

Horácio Pontes

Absurdo [1]

a vida continuará absurda sim
tudo
as horas
os minutos
os segundos
toda sua explanação
toda sua investigação
da peça faltante
e faltará a resposta
para sua inexatidão

a vida continuará absurda sim
porque vasculhar o passado
é como arrombar uma lápide
enterrada na grama
profunda
enraizada

a vida continuará absurda sim
e a suposta luz que virá do amor
ou de momentos bons
carregará para depois os pensamentos
que abortamos
os pensamentos que caem em vertigem
para uma fuga
seja ela breve ou não
sua saudosa incompreensão
de sentir
de ver
de crer

a vida continuará absurda sim
desespero violentado com desespero
sem a certeza da resposta
do fim
do supor
nas horas
nos minutos
nos décimos de exatidão
dentro do caos
onde continuaremos esses
corpos inexatos num parágrafo
de tempo que inventamos para
classificar as coisas
as estrelas
o amor

fardos de levezas
a vida é isso
fardos de levezas
que jogamos por cima
de outras coisas menos
importantes
nossos corpos
nossos pensamentos
cadáveres do sentir

a vida continuará fodida sim
na espera da leveza
esse fardo
do peso de não saber
os minutos que adoecem
enquanto apenas vemos

Horácio Pontes

 

Apoteose do absurdo

nunca me realizei
completamente
sou essa apoteose
do absurdo
sou esses dois abismos
o fundo do poço
olhando o firmamento

[um abismo fere o outro]

Horácio Pontes

 

Memória de esquecimento

depois de muito tempo
talvez nada mais disso
seja memória
as pessoas que vi
que amei
que relatei
tudo será uma
memória apagada
ou guardada
com deus e sua
batuta
conduzindo as estéticas
do absurdo
tudo será na verdade
um terno esquecimento
e tudo que escrevi não dirá
nem um décimo de tudo que
aconteceu

esse absurdo de escrever
será apenas mais uma linha
para dizer que só eu estive
aqui
porque qualquer tarde pode
ser triste
e qualquer amor doer
como a porra de um
soco

Horácio Pontes