16.

As máscaras daqueles que fingem não sentirem. A abdicação forçada daquilo que para as pessoas é essencial. A sensibilidade notada não pela ausência, mas pelo fingimento de não a ter. Sensibilidade e razão? E por que esmagamos as pessoas e nossos filhos ensinando-os a virarem cavalos em busca do primeiro lugar? Desumanizar para conquistar. Humanizar e perder em seguida. Atravessar o caminho alheio e não sentir nada com isso. O modo de agir está nos manuais e agir seguindo sua didática é um retorno à dor, mas somente a sua dor. Porque quem vê para, quem ouve corre e quem sente considera o mundo de fora muito mais que uma matéria para se fazer resistir. A máscara que pesa e nos curva com o tempo, vira nosso escudo para a síntese da vida. Afinal, o que seriam das pessoas se fôssemos apenas humanos?

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

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Poema sem nome [118]

o amor é igual a deus
talvez exista
e por cada vez saber mais
que não sei nada
renuncio a qualquer bandeira
que traga uma definição formal
de sentimentos
e pedaços de nós se
desprendem para
os olhos dos outros
para as charnecas
do impossível

mas o amor passa a existir
quando lembramos os que
amamos
mas o que é amor
senão uma condição
uma ilha apenas sua?
o tempo que habitua
um padrão
uma palavra no dicionário
que define friamente um sentimento
sem se dar por isso

é como a literatura define
o que não pode ser definido
porque a palavra não alcança
a realidade de nossas ilhas
e de nossos divinos pareceres
sobre o nada

o amor
igual a deus
não precisa de tempo
para poder existir na ideia
do que supomos ter
no sentimento que ousamos
um dia catalogar
e o homem desafia esse
limite numa ânsia de pensar
de ter alma
e não apenas um
sentimento

Horácio Pontes

Poema sem nome [115]

sua memória
seu nome
seu gesto

uma pantera
rasgando a pele
expondo para todos
os seus medos
suas aflições

o amor

e no momento
de nossos adeuses
a nossa morte
enclausurada

a soma de tudo

a memória que não
se soletra

Horácio Pontes

8.

O passado muda porque a memória muda, mas não se muda o sentimento ao lembrar naquele instante o corpo e as lágrimas e a espera de sua eterna repetição. O apagamento do passado, a mudança de perspectiva é que trazem essa mutação de não se alterar o sentimento. Muda-se a história, não o sentimento. E no meio disso podemos salvar algumas memórias do esquecimento para que o tempo não o deixe simplesmente morrer. O amor, o perdão, qualquer coisa que podemos adiar ao esquecer, porque a vitória é mais doce ao que nunca venceu e a compreensão da memória requer intenso esquecimento.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

7.

MEMÓRIAS DE VIDRO

A verdadeira paz consiste na falta de sentido para as coisas e quando não nos preocupamos com isso. Por que quero saber o motivo do sol brilhar ou da lua refletir seu brilho? A paz se encontra voando sobre a falta de interesse na dúvida, porque não duvidar é ser feliz. Porém não sou assim, eu que encontro deus em todas as esquinas, mas sou incapaz de vê-lo ou senti-lo. E nós dois, num ritual, nos expomos e no fim damos às costas um ao outro, espelho trincado. Eu não sei quem é deus, eu não sei quem sou eu. E isso me atormenta.

Eu não sei o que é paz e não sei como é ter saudade disso, mas é provável que sofresse mais se provasse desse veneno. Seria igual a saudade da infância, esse grande desastre da vida, esse diálogo com ninguém, igual acontece com deus. O resto de esperança no final da infância, as memórias que baldam o sentimento quando nos tornamos adultos. O coração virará um depósito cruel da dor; e quem sou? Um mapa que não foi atualizado, a memória dispersada de quem acho que sou e assim mentimos. Sim, mentimos para não encarar o destino porque a paz, porque deus, porque essas coisas que nos atormentam são esperas e mudaremos em não esperar conforme viramos a próxima esquina. Enfim, não quero ter paz, não quero a simplicidade que antes tanto sonhei. A paz não é simples, elas são apenas isso e não abrem mão disso. A memória é o que somos, nosso passado fodido, nosso deus torto. E amanhã, quando olharmos de cima o que fomos veremos que não passamos de um estranho na rua. Calouros do que jamais fomos.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

Lembrar

a parte incrível
de lembrar
de recordar
teu olhar
– porque eu sempre
esqueço a voz –
um olhar selvagem
de um leão rasgando
a pele
expondo para todos
seus nacos
de amor incompreendido
seu anátema de si mesma
seu anátema de si mesmo
seu enjoo para o incalculável
a operação matemática
da perda
tudo isso porque um olhar
que não existe mais
apenas soma

essa parte de lembrar

Horácio Pontes

Equilíbrio

os animais se caçam e o equilíbrio
é mantido
há um tempo para o caçador
e aquele que é caçado
e dentro e fora do homem
existe um outro tempo
sem equilíbrio
que traz solidão
e apontamos nosso olhar
para o que machuca
sem entender porque matamos
porque não matamos para sobreviver
o que seria justificável dentro de
algum dos infinitos pontos de vista
que são servidos como fuga
dentro dos tempos subterrâneos
do questionar

a cidadelas construídas como fortaleza
que ruem ao primeiro vento
do tempo sem equilíbrio
e suas vibrações que separam
a pele

e vem o tempo
qualquer tempo
desses que envelhecem
as maçãs do rosto
com sua pele fodida
e seus corações esmerilhados
e acordaremos por qualquer coisa
– se conseguirmos dormir –
sentiremos o impossível nos
corroer ao ponto de queremos
o simples e puro silêncio
e dentro do tempo em que fomos atirados
ele pingará lentamente até que uma depressão
se abra no chão

o intervalo não importa

Horácio Pontes

Anos

por anos evitei entrar
pela sua rua
porque todo o sentido
do que era estava ali
naquela rua
porque você estava lá
e se fosse lá seria
como buscar o que jamais
teria
o sentido de tudo
desvendado na falha da calçada
que usei como marco zero

evitei chegar perto de qualquer
proximidade
física ou não
porque é estafante
brincar com seu mapa
todas as noites
antes do sono nos pregar
pela insistência
e não pela nossa vontade

e fica a memória
seu pequeno registro
esquecido nas paredes
retorcidas de nós
de mim
de você
a porta arranhada
sua dor de atravessá-la

a rua que marca seu tempo
que não tem tempo
seu relógio parado
na inquietação do vento
seus olhos que por anos
foram meu único exílio
exílio do qual fui exilado
sua fronteira sem borda
que fecha enquanto
decifra o sentido
e esconde o que se foi

nossa parede retorcida

Horácio Pontes

104.

VÉSPERA DE NATAL

A morte seria uma aspiração para mim. Seria o fim realmente digno para quem não espera recompensas, para quem não espera o inferno, paraíso ou qualquer coisa semelhante. Espero a morte plácida e fria igual a todas as criaturas do mundo. Encontraria a felicidade? Eu, que por tantas vezes, entrava no primeiro botequim para encontrar a resposta no fundo do copo, ficava embevecido com a cor laranja que o céu me dava, para depois ter a coisa artificial que saem dos postes.

O natal está chegando, e dentro do botequim, percebia a silhueta das pessoas – sempre apressadas, é preciso relatar! – na rua, por vezes de um lado da rua, por vezes deste lado tão triste, debruçado na mesa, olhando o copo pela metade. Então me peguei atravessando a rua do pensamento, no natal, onde todos fingem amor e compreensão. Seria fácil atravessar a rua e dar de comer ao mendigo, que certamente sorriria e também agradeceria, convencido de como eu também estaria, de que o natal está chegando. Poderia encontrar até o antigo amor que tive, junto da sarjeta. O natal não tornaria isso tão casual, tão fantástico a ponto de nos fazer tremer e sentir o estômago revirar. Não, não seria igual a atravessar a rua com o objetivo pronto, posto, com a desculpa da data esfarrapada, igual a tantos encontros marcados nas agendas ou nos celulares.

Agora me encontro parado, sonhando dentro do copo.Imaginando Jesus admirando os velhos jargões da esperança e da bondade forçada, talvez papeando com um mendigo esfomeado ou tomando qualquer líquido com álcool como forma de anestésico, da sinestesia absoluta de nossas mentes e de nossas vidas. Sim, em minha ilusão eu teria atravessado a rua e dado algo de comer a algum miserável. Sim, deus estaria lá, finalmente estaria lá em meu caminho. Saberíamos a morada um do outro, cada um em sua couraça mentida, reproduzindo em vômitos as nossas verdades, abrindo a janela em momentos de tristeza, no natal, procurando sentido para alguma coisa, procurando o encontro casual no botequim, no puteiro ou dentro de uma casa de concertos.

Exceto no natal, sempre andei pelas ruas sem procurar pordeus, mas acho que isso é só uma maneira de me enganar. O silêncio é tão grande em meio a tanto barulho, a pausa é estilhaçada, e as flores das floriculturas murcham em uma alegria quase triste igual a um gato se escondendo da chuva. E foi numa rosa que em certa ocasião eu vi deus. Ela foi sacrificada igual a Jesus na cruz. A mortalha que nunca existiu, andava com ela para ir ao trabalho, para entrar em casa. Quantos de nós já não nos sentimos Jesus Cristo na cruz? Quantos de nós, em nossos mundinhos tão pequenos, já não nos sentimos os mais injustiçados do universo inteiro? Questões de grandeza são insignificantes quando mudamos de um corpo para o outro. Questões de grandeza são insignificantes quando atravessamos a rua – realidade ou ilusão não importam nesse momento! – e damos de comer a alguém.

Seria tudo igual ao episódio da rosa que pensei ser deus, seu desenho que recortava meu coração em berros dados dentro de uma garrafa, o relâmpago que corta a carne e sentimos na mão sua natureza áspera. Todos sorriem no natal, todos riem soberbamente, encontrando todos numa mesa farta de comida. E lá está a rosa cortada, num ciclo simples, que seria digno de grandes livros, mas quem quer perder tempo com isso? Quem deseja atravessar a rua e sair de suas rotinas? Quem deseja atravessar a rua e meter a mão na sujeira? A vida é uma travessia em dezembro, ao beber o anestésico e ter na palma da mão a surpresa de polichinelo, o medo de ter a verdade marcada na mão para sempre, de ver que a roldana do amor é um espelho que reflete uma flor, com a despedida e a passagem de ônibus para lugar nenhum.

A frase feita vem no momento apropriado, mas tirando o natal, fica difícil concluir quando é o momento certo para quebrar a máquina e se debruçar na mesa de um botequim vagabundo e imaginar Vivien à beira da árvore socorrendo Merlin. Afinal, o que faz sentido? Atravessar a rua dentro de nossas realidades ou apenas no pensamento? A compensação será a mesma. Um dia eu chegarei a um estágio superior, onde não precisarei mais questionar a falsidade prontificada do natal, onde não precisarei mais prestigiar tal data, entre o peru de natal e o doce, onde a vida de Jesus foi contada. Por que discordar da máquina?

Roberto Lorembrant
Do livro O Girassol Mecânico

Silêncio

o que te incomoda tanto no silêncio?
o olhar que não existe e que semeia
e transborda a palavra que também
não existe
sua inquisição para si
que trespassa o olhar

tudo em você é de cabeça pra baixo
seu amor que não é amor
porque amor não nasce da loucura
mas sim das mãos que prenunciam
a beleza de poder saber o outro
como de fato são
sem suposições
sem julgamentos
sem bruxarias
ou histórias inúteis

afinal
o que te incomoda tanto no silêncio?
o milagre que tem explicação lógica
o punhal com o qual suicida sua própria paz
[inutilmente]
e que faz amargar o líquido
que outrora lhe matava a sede

o silêncio é como as horas
só compreendem de fato
aqueles que sabem o que elas são
e o que também não são

o silêncio é seu punhal
o silêncio é minha paz

o silêncio

Horácio Pontes

Fragilidade

frágil é o amor
que cruza essa
noite
sua palavra em
pleno silêncio
sem rumo
na marca feita
na pele
marca invisível
que só quem sente

e fica a ausência de tua
voz sendo minha âncora
porque esquecer sua voz
me custou a luz
a estrela que sumiu
do céu
sua sombra

ausência forçada
ausência serenizada

Horácio Pontes

Construção

construímos
diariamente
o amor sobre
a areia

recomeçamos
todos os dias [?]

Horácio Pontes