Alcance

a memória ao alcance
da íris
seus estilhaços congelados
onde alguém fechou a porta
e não voltou
ao longe
talvez ao acaso
a lágrima

e entre o que você era até ali
e o depois é um objeto da chuva
com a íris
e suas flores
que disparam a dor
sua memória detalhada
do tempo que se abre
agora

sim
agora

no agosto
dos vergalhões
enferrujados

Horácio Pontes

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1.

Há sempre a forma de algo corrompido, sua cor que inclina o velar, que esconde que somos roupas violentadas pelo vento em nossos varais. A forma que separam duas vidas, que dividem sua contradição poética, o assassinato da ternura de apenas fechar os olhos contra o sol e imaginar coisas cheias de calor, mas não. O que surge é a urgência da infância, urgência que outrora quisemos que passasse rapidamente. A morte que ainda é viva na qual resta sempre a esperança de que amanhã será um dia melhor, mas sabemos que não será. A vida silvada, a aurora que umedece o cansaço. Sua forma. Sua forma corrompida.

Dentro dessas formas os anos correram e se amontoaram. A forma que se funde com outra criando uma fantasia que a razão estraçalha igual os amantes que correm para ruas opostas. Sim, nas formas, nas pedras, na chuva, na luz que faz desenho nas paredes, até no cheiro, porque cheiro também tem forma. Tudo é infância, tudo é saudade que não se sabe idade e local. Onde que eu me perdi? Onde foi que a noite me levou e me tornou esse rastro errabundo de mim mesmo? Não há volta, só os anos e suas formas.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

Inutilmente

tento inutilmente
recompor o que sou
ou melhor
tento recompor
o que fui
o muro sem proteção
o muro sem cimento
seu chapisco que poderia
me salvar do que hoje sou

a janela
[sem janelas]
em que contemplo
o que poderia ser
espelho
mas que não é

a casa pelada
que é eterna
as janelas que são
túmulos subentendidos

a recomposição da matéria
a recomposição inútil da memória
a recomposição do que fui
um muro que rasga
na primeira chuva

sem janelas
sem espelho
sem tempo

sou

Horácio Pontes

Dia de chuva

hoje é um daqueles dias
que deveria ter chovido
lavando as ruas
e também aqueles que
se arriscam nela
a chuva que pensa
e nos faz sentir a necessidade
de escrever
uma carta
um poema
um aforismo
qualquer coisa
que sabemos
e que perecerá
na sombra do amor

sempre me acusaram
de não saber me expressar
e todos estavam e estão certos
eu não sei dizer o amor
mas sei escrever em qualquer
lugar sobre o que é isso
e de suas formas
sua arquitetura num mundo
que chamamos a chuva
onde me custa a fala
falar a palavra que atormenta
a palavra
que naufraga seu sentido
nas cartas
nos poemas
e até nos aforismos

o silêncio entre
palavra escrita
e a palavra dita
é onde a chuva
faz seu papel
de coração lavado

Horácio Pontes

Chove

chove novamente
forte
suas águas que
arrastam
ou trazem
nossos rostos
apagados
que resistem
à esterilidade
da vida

seu barulho
atonal de silêncio
sua harmonia caótica
que cintila ao encontrar
o chão
seu céu
de cabeça pra baixo

e chove
no nosso próprio
chão
infinitamente
e dentro de algum
tempo
nos dobraremos
em posição de oração
que revelará
a deficiência entre
os dedos
a chuva de cabeça
pra cima

nossas lágrimas
de mortal eternidade

Horácio Pontes

 

Chuva

a chuva cai com força
cai com tanta força que machuca
e vem a dor
dentro e fora
e não dormimos
prisioneiros de seu som
que protesta e reverbera
suas moléculas simples
que se partem
que partirão rumo à pele
infusão de medo
selvagem que precipitará
mais tarde um rio

a chuva que derruba
a parede
e nós
o homens cegos
de vida

Horácio Pontes

 

Oh Traurigkeit, oh Herzeleid

heute fühle ich mich ihre hände
schmutzig von reiseziel
von soll reiseziel
und nicht das gefühl die gnade
in nichts diesem
aber schande
meine gott

und nicht wir wissen
aber die welcher weise
nehmen
oder zu folgen
und folgen der kurs
von sachen
so hat es war das leben
während denken was
du bist wirklich am leben
und wir denken der traum
als etwas echt

ihnen gehört meine traurigkeit
ihnen gehört meine herzeleid
und bring mich wohin glaube nicht

erinnerungen gefallen in boden
ungläubige der regen

[ich wasche mich]

Horácio Pontes

 

Violência

a violência em mim
tem consequências
devastadoras
a pequena canção que toca
dentro de mim
e chove muito
e dói
corrói
fode
onde já cansada
infesta a tristeza
que dá tom ao
meu corpo

traz o deserto
amálgama da vida
abismo
e ainda chove
a violência
que respiga na
roupa que
pusemos no varal

a violência
dá tom ao
meu corpo

Horácio Pontes

 

Sonhos [6]

o jeito de ver a chuva aumentar
até o trovão vir e se esboroar
no sonho em que tudo pode
ser criado e vivido
isso é tão poético
que finda a própria
poesia
e até mesmo o amor
que pode surgir
coesamente da chuva
coisas que são completas
apenas em ilusão
em sonho
experimentado
de poder morrer nele
coisa que nem deus
poderia ver

Horácio Pontes

 

Poema sem nome [65]

lembro da primeira vez
que levei um baque ao
ver algo realmente notável
foi com uma música
ouvi-a dezenas de vezes
procurando seu local exato
de fraqueza
para poder explorar nela
e em mim
tão fodida
profundidade

com as pessoas ocorreu
um pouco diferente
eu as construí
amei algumas delas
e pouquíssimas
amei de tomar a decisão
de morrer por elas

a compreensão disso
não é fácil
nem pretendo que a tenham
porque o começo da música
é tão chuvoso quanto a chuva
de nós mesmos

Horácio Pontes

Primeiro poema

finco minha permanência
nos troncos remarcados
pelas chuvas

o que fazer contra
os gestos lentos
costurados com
arame triste?

deixe-me colher nos
abismos meu rosto
do tempo irreversível
que o som da areia
transborda

Horácio Pontes

 

Poema sem nome [42]

choveu o dia inteiro
as ruas acobertam-se
de silêncio e solidão
e a chuva cai
os sentimentos recolhem-se
nas marquises com seus
rostos
suas galerias de imagens
e guardam o quê?
por que fogem da chuva?
esquecem a vida espairecida em
seus olhos

[a chuva cai]

Horácio Pontes