Dor de atráves

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão
em mensagens
e-mails
e bilhetes que amassaremos e
que jogaremos em qualquer lugar
e você que amou desde a primeira
mensagem
sua primeira obra de arte
seu livro
sua música
sua pintura
sua dança
e que nunca soube
de fato seu nome
você sempre correu
de volta pra pegar o bilhete
amassado
e não sabia que escrevia
apenas sobre si mesmo
apenas sobre si mesma

e na denúncia precisamos
nos proteger de nós mesmos
e daquilo que não entendemos
e surgirá disso o corte
que deixará os olhos a ermo
registrando mais uma vez
e sempre mais uma vez
a dor e a solidão
de escrever e não ter a resposta
desnudada

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão

Horácio Pontes

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Alcance

a memória ao alcance
da íris
seus estilhaços congelados
onde alguém fechou a porta
e não voltou
ao longe
talvez ao acaso
a lágrima

e entre o que você era até ali
e o depois é um objeto da chuva
com a íris
e suas flores
que disparam a dor
sua memória detalhada
do tempo que se abre
agora

sim
agora

no agosto
dos vergalhões
enferrujados

Horácio Pontes

Dor

dói a vida com seus
destinos sem serem
propriamente destinos
seu tédio que ejacula
na pele seca
a significação de nossos
vazios

dói
sim
dói muito
a intromissão
do pensamento sobre
o que é e o que pode
ser uma vida

a amargura de esquecer
o esquecer
a divisão justa e
perfeita da paz
manchada
o roubo da essência
o voo dilacerante
da existência

Horácio Pontes

Dor

Untitled_09102017_025341

a esperança fracassa
a dor não
o amor fracassa
a dor não
a esperança na dor
fracassa
a dor não

a dor na esperança
é dos iludidos
os iludidos da dor

Horácio Pontes

Chuva

a chuva cai com força
cai com tanta força que machuca
e vem a dor
dentro e fora
e não dormimos
prisioneiros de seu som
que protesta e reverbera
suas moléculas simples
que se partem
que partirão rumo à pele
infusão de medo
selvagem que precipitará
mais tarde um rio

a chuva que derruba
a parede
e nós
o homens cegos
de vida

Horácio Pontes

 

Lume

não esqueci e não posso
esquecer você
Branca

nunca

de seus pensamentos
cheios de asas que resumem
o vento fechado
com sua voz
que desloca a
vontade

ontem
hoje
amanhã
através do tempo
através dos dias

de seu vapor que
descansa nas ruas

não esqueci e não posso
esquecer você
porque me transforma
no tempo dentro das mãos
do amor

sim
Branca
é o nosso lume
nossa dor transformada
em idade

pelo tempo
pelas imagens
por nós

Horácio Pontes

 

Dor de através

escrevo para não morrer
na ruína
escrevo para às dores
de minha alma
de minha vida
da solidão que exaspera
de meus olhos
desses olhos que trazem
a brutalidade da tristeza
de um deus que não
se mostrou

Horácio Pontes

 

Oratio desolata

I

morreremos todos
e alguns terão a ilusão
da ida à luz
[ou pior
seu retorno]

pensarão que todos
voltarão para o sol
nosso resto de supernova

e lamentarei aos que
tem o sono inocente
da religião
e que
fechem seus olhos
por mim
por seus pobres corações
quando a batida acabar

somos sua imagem?
somos reflexo de sua dor?
somos sombra na noite
com os dias de roteiro
pronto
escrito
e sacramentado por ti

mandar a mensagem
ou melhor
mandar a súplica
e não ter a resposta
dos que choram
seus braços falsos
onde todos descansam

II

tu ouviste minha voz
meu chamamento
anos atrás
e tive pena de mim
por causa de sua crueldade

e o amor que liberta
e que é apagado por ti
sem explicação
da rosa que não seca
mas perde as folhas
como as asas de um anjo
lentamente
até sobrar nada

III

o trovão preludia sua chegada
igual os estampidos dos tímpanos
na orquestra
numa sinfonia da vida
nascente
a chuva cheia
sobre nós
esperando o choro

minha alma gêmea
cai
isso
cai como uma águia até mim
para que me faça luz
e me lave
disfarçadamente

serei então minutos de fuga
de descanso eterno em poucos segundos
ou daquilo que desejar
mas que manda a tristeza embora

caia
por favor
caia

minha pavana doce
eu amo você
sua música
sua forma irregular

é uma força além dele
tenho certeza
sua comoção para comigo
é humana
e só isso

IV

a dor nos molda
e nos faz formas
muitas vezes definitivas
e quando julgamos estarmos
sozinhos
não estamos sozinhos
mas em tua companhia
mas sim de outros pensamentos
de outros sonhos dentro
de mais outros sonhos

dentro da dor tento te escutar
e não ouço nada
está em silêncio
esperei a resposta
e tudo desabou numa
tarde
numa canção

mas não pude ficar nessa
noite para sempre

Horácio Pontes

 

Poema sem nome [34]

da dor sai a poesia
sai a palavra enfeitada
mãe

da dor que aproveitamos
[fingida ou não]
para desgraçar o amor

do amor que um dia
se fará sol e virará
gota de orvalho
porque amor é a flor
nascer e brilhar mais
forte que o próprio
sol

eu me queimo
e decomponho
mãe

desgraço o amor
para que ele nasça
novamente

[o amor volta?]

Horácio Pontes

 

Poema sem nome [27]

faço o tempo
sem forma
sem mim

afundas em mim
o medo
o poente rachado
quebrantado
na essência
de mim

faço o tempo
sem forma
sem mim

faço-me retorno
diariamente
sou reencontro
cicatriz aberta

Horácio Pontes

 

Movimento perpétuo

ninguém pode sonhar
o mesmo sonho de igual maneira
porque de onde as coisas nascem
tudo deriva ao movimento perpétuo
porque não estamos alinhados
com o mundo

criamos para tornar
o mundo menos largo
e no fim não compreendemos
absolutamente nada
moraremos no passado
na religião
na tristeza
no ufanismo social
da prole
da cultura morta
da coisa miserável
que enche o espaço
com nossos choros

e peço piedade
peço mar calmo
viagem próspera
com a dor cingindo
em meu coração

e não vale mais chorar
para ti
tão longe
céu vazio

resta não poder sonhar
as mesmas coisas
calar
fechar

tudo deriva ao movimento perpétuo

Horácio Pontes

 

Ode para Brahms

a corda interrompe o piano
quarteto para piano em lá menor
de Brahms
irrompe a geleira dos sentimentos
à procura de uma palavra nova
para o sonho

canção noturna
quimera ou qualquer
coisa que possa ser apenas um
instante submetido ao sentimento
além humano

golpe que dilacera a cada
passada de arco
da corda que vibra igual
minha desconsolação

o olhar que deslumbra
o sonho
partitura pintada no
puro improviso
balbuciando frases
sem validade
por pura dor

nada poderá me impedir
de ouvir o som pálido
de sua estrela

quarteto para piano em lá menor
de Brahms

Horácio Pontes