46.

LEMBRANÇAS DE BOLSO

Mais uma vez o fracasso toma conta de mim, a incapacidade de acreditar nas pessoas por quem algum apreço tivera. Tenho que me escorar na noite, nas ruas cheias de gente – e solitário! – e sentir o bater de dentro pra fora, a violência cretina e súbita de ser estranho a um mundo que tenta se organizar da pior maneira. Não reclamo das coisas naturais, reclamo do homem, que afeta tão poderosamente o curso das coisas e que me traz a sensação de fracasso. Sinto por todas as pessoas falando de empregos, fofocas e jornais, de tudo que não faz parte do que entendo como abrir caminhos.

Os homens falam com a inconsciência, organizam-se em meio ao processo de uma sociedade absolutamente inferior ao que penso, ou até mesmo ao que empregam as abelhas, os cupins ou as formigas. Deixando de lado os sistemas, a existência ou sabe lá mais o quê, não se revela nada a não ser o fim das coisas, da amizade trocada por um sistema falível. Sinto a derrota nas minhas palavras, sinto deus me castigar mais uma vez, o mesmo deus que não acredito, pois o homem não deveria se divisar na inteligência, mas sim em algo maior que isso, pois alguns se acham superiores e não são. A beleza não é para quem lê, mas para quem compreende o erro, o que atende a certos fatos e não muda sua essência, que não pega para si o broche da falsa capacidade, da falsa inteligência ou da superioridade. Isso não passa de um elemento de imperfeição. Tendo a ciência de tudo isso, diante do mal no qual estamos chafurdados, da bondade e da justiça que deus tanto pregou, não posso aceitar isso senão sendo algo do próprio homem – essa semente esquecida e jogada na existência! – em sua arrogância, nos que erram as contas e não se dão conta disso, nos que estragam a amizade secular, o amor, a arte, a sensibilidade e até mesmo a poesia. Não aceito nada que seja superior sem que haja um fundamento. Acredito apenas na capacidade do homem destruir as coisas, nos pormenores do que chamo “ajustamento do universo”, um lapso ou não-lapso das razões sem que nos seja dada a visão realmente verdadeira das coisas fora do sistema. A amizade, o amor, tudo isso é um ritmo, um verso construído dentro de uma imperfeição que pode ser bela. Só me resta o fracasso ao fim de algo que jurava eterno como certas amizades, só espero não perder mais ainda. Também não quero que pensem que minha falta de fé decorre apenas disso ou da dor de barriga que temos recorrentemente. O erro consiste em não enxergar os atos, não ter o argumento necessário, como pessoa inteligente que nos julgamos, para consertar as coisas, dar a distinção do que é certo e tentar ser justo. Não posso negar que o fracasso na vida é inevitável, mas o fracasso não deveria ser aceito. Confesso que o problema realmente continua e é cada vez mais forte em todos nós, mas é cada vez mais forte porque em todos nós subsiste nossa capacidade de não enxergar as coisas.

Roberto Lorembrant
Do livro O Girassol Mecânico

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Fotografia [7]

olho para a fotografia
e tenho medo de me reconhecer
nela
uma fração do que pode ser o espelho
a lembrança resgatada
e que não pode ser vivida
o espelho muda
a fotografia muda
mesmo sem ter mudado
mas não adianta explicar isso
sem a contradição da própria
memória que preenche um vazio
uma memória perdida com qualquer
outra coisa
somos várias faces prontas para
serem substituídas
a falsidade involuntária
do que somos

o cinismo justificado
de virar a cara para uma
fotografia

Horácio Pontes

Dualidade

é preciso mais que uma lembrança
é preciso mais que um sentimento
é preciso a dualidade
a esquizofrenia do impreciso
e seu chapisco pouco necessário
é preciso que em morte viva
o ferimento do que pode ser um
amor afague o ódio na colina mais
próxima
ou que seja exatamente o oposto
que venham os dois e
quem for o primeiro terá sua
insônia preservada

a loucura lúcida
o desespero tranquilo
e vice-versa
a vida dupla de sentir
e não sentir
e ter que representar isso
quando for ou não coroado
com qualquer coisa

o sol
a lua

[nossos apagamentos]

Horácio Pontes

Voz

o desespero de esquecer a voz
dos que agora estão do outro lado
mas há vozes que se reconhecem
e se relembram mesmo após tanto tempo
e ditamos seus versos vagarosamente
ao vento
relembrando a fonética
dos novos velhos tempos
de corredores com a poeira caindo
denunciada na faixa de luz que insistia
nas grandiloquentes penumbras
do silêncio

e lá a voz era relembrada sim
dos dias perdidos escrevendo poemas
pleno do sentimento esmagador da saudade
sua dor chibante de um tempo antigo
a lembrança demorada de quando
as ruas em tempos de criança
mediam muito mais do que hoje

a poesia apressada que pousa
em nossos olhos aturdidos
o esquecimento da voz
pelo tempo que respiramos

[o seu]

Horácio Pontes

6.

O tempo que traz até nós alguma calma depois que aposentamos o astrolábio. Eu pereci nesses anos e me envergonho disso, porque me tornei escravo do tempo, escravo do trabalho, escravo de minha vontade de ficar sozinho, mas ao invés de desaparecer a vida insistia em me fazer crescer mais e mais até me tornar esse não-eu que me tornei. E não lutei contra, fui covarde e reconheço nesse erro a ameaça da memória, a lembrança incômoda com que deus gosta de me entortar. Deveria ter melhorado minha letra pra ele poder entender minhas reclamações, dessas palavras tortas que fodem a emoção, dessas palavras cheias de culpa por não ter vivido com fleuma. Sim, eu aprendi na porrada que todos os sentimentos devem ter suas medidas. Linha reta que deus entorta.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

Poema para Perséfone [8]

o que é a vida
Perséfone?
o que é vida?
porque sua ausência
faz de nós
– os miseráveis –
arautos de sentimentos
que morrem para serem
eternos?

a morte de deus
a morte do amor
a morte do poema

morremos diariamente?

mas o tempo não passa
e não morre
e tentamos encerrá-lo
escrevendo
esquecendo
matando-nos na própria
vida

por quê?

e morre deus
e morre o amor
e morre o poema

porque não estamos
mais aqui

nossa morte é lembrar
Perséfone
nossa morte
é lembrar

Horácio Pontes

 

Poema para Leuconoe [2]

as palavras
Leuconoe
viram flores ao
vento

secas
porque o tempo
corre hostil

e depois de tanto
tempo passado
de sua maldição
contradizendo
o tempo
faz o rosto dos
já cansados dizerem
sim

estafados
porque o tempo
corre hostil
a morte faz
a memória ser
importante
para que possamos
inventar disparates
iguais o amor

exauridos
porque o tempo
corre hostil

e tropeçamos
nessas flores
nessas contradições
nesses amores
nessas investigações

a palavra
Leuconoe
a palavra

Horácio Pontes

 

 

Atonais [7]

Deste lado da vida existe o sonho, meu corpo cansado das batalhas heroicas do cotidiano. Por vezes vejo minha amada na janela, a rua com suas luzes que uma hora apagarão, assim como todas as coisas da vida. Tenho no amor a lentidão necessária para a calcificação, o concreto maciço para ter o controle. Tenho nela o meu anjo caído que se esquece de me proteger às vezes. Então o mundo bate na lembrança apanhado no primeiro raio de sol que desce rumo ao meu pensamento. Do outro lado a vida continua alheia e indiferente aos meus pensamentos sérios. Quisera eu surgir e desaparecer sem nunca ter sido visto, esperando a ordem e a desordem numa noite que fosse finalmente definitiva.

Horácio Pontes

Sonhos [7]

tentei lembrar de um sonho que me assombrou
nos últimos anos
pensei numa única palavra para descrever
sua lembrança no idioma do sonho
coisa única e verdadeira que não fala
MAS SENTE
esse idioma em que nos levamos
para os túmulos de nossos medos
em silêncio
com medo da rejeição

sim
eu sussurro sonhos
murmuro ilusões
em meu idioma
enquanto a memória derrete
nas mãos de quem ousou
pegá-las
e viu na retina puída
o meu cansaço recordado
como no terceiro concerto
para piano de
Rachmaninov

reter o idioma do sonho
o sonhês
um idioma para a morte lenta
quem sabe?

sonhar adoece
lembrar adoece

Horácio Pontes

 

Amanhã

amanhã seremos nada
restos de girassóis
pedaços de acasos
de lembranças que morrerão
quando a última pessoa
que souber de você se for
sentimentos calados
para sempre

amanhã seremos nada
uma foto perdida para
sempre em algum lugar
memória congelada
na escuridão de uma
caixa
triste fim dos homens
ferida aberta
e só

amanhã sempre seremos nada
dos dias que passam e não
recordamos os pequenos
pontos realmente importantes
as despedidas diárias que
se tornam banais
os arrependimentos chorados
no banheiro
no banho
água que corre
arrependimentos do próximo
amanhã
amanhã de ti

Horácio Pontes

 

Verbo

é contra as coisas que sinto
que luto inutilmente
tudo que penso
tudo que sinto
tudo que digo que é
certo
errado
as coisas que faço
e também de minha
hipocrisia que
desespera minhas
lembranças

somos loucura
controlada
crianças mortas
adultos que vivem
em traição de si mesmos
insultos ao sentimento

e pedimos no meio das
baias de trabalho uma
outra vida
pedimos um destino incerto
para não sermos vencidos
pelo medo

agrido-me a cada pensamento
desse tipo

faço nascer a sentença
da qual sou o próprio
verbo

Horácio Pontes


Lembranças de através

existem lembranças
que escapam das mãos
como se destino não
mais existisse
estrada aberta para
lugar nenhum

sinto a ausência de vida
dessa mesma que jorro
contra minha vontade
e hoje
logo hoje que a vida
ecoa num vazio de final
de música

lembro de ti
teu olhar de memória posta
[lembranças de através]

Horácio Pontes