Alcance

a memória ao alcance
da íris
seus estilhaços congelados
onde alguém fechou a porta
e não voltou
ao longe
talvez ao acaso
a lágrima

e entre o que você era até ali
e o depois é um objeto da chuva
com a íris
e suas flores
que disparam a dor
sua memória detalhada
do tempo que se abre
agora

sim
agora

no agosto
dos vergalhões
enferrujados

Horácio Pontes

Anúncios

Nihil [20]

e alguém te diz que o entardecer foi abolido
por tempo indeterminado
sim
eles que controlam a vida
e te dizem que o amor e a empatia
serão exilados para outro lugar
mas que não se preocupe com isso
pois a tecnologia te porá ciente dos
futuros acontecimentos
e te dirão para consumir
porque só consumindo você
alcançará a liberdade
a liberdade presa na cela do cartão
e virá a dúvida
que você enfim venderá
para que a palavra seja esvaziada
de toda anamnese e cachimônia
então o objetivo será cumprido

a desmemoria do que realmente somos
prontos para morremos por porra nenhuma

Horácio Pontes

Poema sem nome [114]

o tempo morre
feito a lágrima em
meio a uma chuva
repentina

a lágrima que bate no tecido
mas não se dissolve de imediato
pois ali está o tempo preso
morto
na permanência do iminente
que carrega o tempo infinito
que toma o corpo
e a lembrança
animal que nos persegue
e não reconhece o erro
que fode a memória
a chuva que se faz lembrar
com mais intensidade
feito a lágrima em
meio a uma chuva
repentina

para ti
para mim
para todos

a memória ameaça
chover

Horácio Pontes

Fio de Ariadne

ir e apenas ir
tecendo o fio de Ariadne
sem a intenção
do retorno

às ruas
acabando em outras
com os pés cheios
de bolhas
o chão metálico
esverdeado por causa
do tempo

as vozes alheias
os carrascos
e os violinistas
seu pulso antagônico
que traz por fim
o PNA

e o fio é tecido
tecido lentamente
na parede
e pelo excesso de tristeza
chove terra
o gosto metálico na boca
e na lua que os animais adoram
os homens justificam sua loucura
seus crimes que acabam
no tempo que o vento
trata de esquecer

[a memória persiste]

Horácio Pontes

8.

O passado muda porque a memória muda, mas não se muda o sentimento ao lembrar naquele instante o corpo e as lágrimas e a espera de sua eterna repetição. O apagamento do passado, a mudança de perspectiva é que trazem essa mutação de não se alterar o sentimento. Muda-se a história, não o sentimento. E no meio disso podemos salvar algumas memórias do esquecimento para que o tempo não o deixe simplesmente morrer. O amor, o perdão, qualquer coisa que podemos adiar ao esquecer, porque a vitória é mais doce ao que nunca venceu e a compreensão da memória requer intenso esquecimento.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

6.

O tempo que traz até nós alguma calma depois que aposentamos o astrolábio. Eu pereci nesses anos e me envergonho disso, porque me tornei escravo do tempo, escravo do trabalho, escravo de minha vontade de ficar sozinho, mas ao invés de desaparecer a vida insistia em me fazer crescer mais e mais até me tornar esse não-eu que me tornei. E não lutei contra, fui covarde e reconheço nesse erro a ameaça da memória, a lembrança incômoda com que deus gosta de me entortar. Deveria ter melhorado minha letra pra ele poder entender minhas reclamações, dessas palavras tortas que fodem a emoção, dessas palavras cheias de culpa por não ter vivido com fleuma. Sim, eu aprendi na porrada que todos os sentimentos devem ter suas medidas. Linha reta que deus entorta.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

Oração inalcançável

uma oração inalcançável
é dita com pressa
presa dentro de nós
dia após dia

por muito tempo
não sabemos seu porquê
e nem o seu por que
mas ela consome
nossas vidas
macerando cada segundo
cada hora
sempre lá

seu significado estrangulado
seu embaralhamento
seu disfarce de algo bom
sua ferida em forma de preâmbulo
sufocando sonhos
e capturando a liberdade

ontem oração
hoje uma voz rouca
amanhã apenas uma palavra
ecos dentro de um buraco
mal tapado

memórias na pressa
memórias presas
dia após dia

Horácio Pontes

Surdez

a memória já não guarda mais nada
e as ilhas são afundadas após o toque do sonar
e a terra
as pessoas
e os pássaros
reconhecem finalmente nossa surdez
porque a música que toca não muda mais
o jeito com o qual a ouvimos

a necessidade de esquecer é imensa
para que possamos negligenciar
o que nos mata
o que nos fode
o que no arruína

e a beleza do vento
só pode ser denunciada
por outro objeto livre
por outro objeto leve
alheio
que fotografa a juventude
perdida em todos os sentidos
para nos tornarmos velhos amargos
catando as cores perdidas nesse vento
indefinido
nesses sonhos prostrados
em que a memória é esquecida

ouvimos o vento
em nossa surdez

apenas isso

Horácio Pontes

 

Fotografia [6]

você esqueceu meu nome
você esqueceu nossos amanhãs
e naquela foto que não tivemos
o que disse teus olhos?
envelhecemos numa foto
que não houve
e lá cabe a nós nosso
silêncio
que nos traz de volta
ao lugar
lugar que não existe
da foto que não houve

esquecemos nossos nomes

Horácio Pontes

 

Memórias [1]

Para Nina Galdina

I

o cais que faísca
no peito
seus coágulos
a vida que arrasta
trinca os ossos
arrasta o pó
para as poças
e a madrugada cai
em seus olhos
a luz da Lua na
água é nosso exílio
marcado no peito

II

o barulho final
a queda
o eco que escapa
na pele
mina a lágrima
tentando repor
sua imagem
sobre a rocha do rosto
o pensamento
erva daninha
ao encontro do acaso
os olhos
nosso destino
o incansável escutar
o barulho final
o fundo do poço
as estrelas fixas
e vem o mapa
que governa
nossas vidas
nossa existência

[e tudo deveria
apenas ser]

III

olha o entardecer
olha
apenas olha
olha o laranja que infesta

que importa aquilo
que não fomos
se o que não fomos
é o que nos motiva?

Horácio Pontes

 

Poema sem nome [95]

rogo à ti
para não morrer
nos vestígios do que fomos
nas memórias com nossos
pés descalços na água

encontro-me no que não posso
ser
perco-me nos locais que nunca
fui
a nuvem
que alimenta nossos sonhos
que não
foram

meu girassol

Horácio Pontes

 

Horizonte de através

tu que me fizestes percorrer
um caminho acidentado
na vã esperança de sentir sua mão
pesou em mim a culpa de acreditar

e pedi perdão a mim mesmo
por acolher a esperança
nos crepúsculos da fé

pai
tu não existes

és um anjo inventado
no relento das noites
pelas crianças
que tentam suportar a dor
do frio
com histórias
para se nutrirem com os
restos que a vida dá
restos esses que chamo
de horizonte

o horizonte é meu resto
com seu som de chuva
escalpelado pelo encontro
com o concreto
que levam nossos horrores
na sola dos sapatos
aos nossos medos desérticos

esse barulho que é guardião
supremo da memória
que tu enterras
porque não existes
nunca mais

Horácio Pontes