Estudo [1]

na ínfima ideia
o teu nome em brasa
e o inverno exala um
cheiro que beira ao ridículo
de suas flores ainda fechadas
onde a vida em essência
absurda a morte

a brasa onde
a morte intumesce

Horácio Pontes

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Poema sem nome [120]

a vida está morta
e a culpa não é só minha
porque dentro de mim
da melhor forma que pude
tentei mantê-la intacta
longe da realidade
mesmo que uma seja a outra
e a outra seja uma

o que importa no fim?
nada
e não adianta
porque o desespero dessa
causa
– que é viver –
imita o impossível
imita o incerto que é
ser um ser
com sentimentos
e com pensamentos
que caem em contradição
quando a boca abre e produz
a voz que nos calará

nós mesmos
NÓS MESMOS

e extinguiremos aquilo
que nunca existiu de fato
a estrada já esburacada
que é a vida morta

morta vida
[eu]

Horácio Pontes

Memórias de através

o nascimento
a sobrevivência
e a morte

tudo soma-se a um monte
de memórias enterradas
em arquivos mortos
e seu destino se encerra
cumpre-se a vida
igual aos kamikazes
e seus poemas escritos
no improviso que a morte
faz ter
e deixamos de ser inocentes
temos maculada toda uma vida
para um certo questionamento
e ao jugo de questionamentos
em que a resposta simplesmente
não existe e mesmo sabendo disso
correremos atrás delas
como compete aos poetas
filósofos
e até alguns músicos

em vão

e nos submeteremos ao apreço da morte
mas a verdadeira revelia não é escrever na
horizontal mas sim se negar a dar o testemunho
disfarçar o cloreto que ameaça cair do olho

nascimento
sobrevivência
morte

a vida mistura essas merdas
e nos resta apesar de tudo
de sua dor
de seu abandono
de sua tortura
saber morrer com alguma humanidade

[dói]

Poema sem nome [117]

sete bilhões e mais
não sei quantos
e apenas uma pequena
legião de sombras
ditam as palavras
que costumamos
vomitar a cada
alerta de ataque

o resto caminha morto
inclusive os vivos
que esqueceram de
nascer

Horácio Pontes

Acontecimento

lembrei um acontecimento
quando era criança
eram crianças que pulavam numa
lagoa
com o sol fazendo o resto
dessa imagem campestre

do outro lado vinha o carro fúnebre
com seu morto
suas exéquias
sua procissão lenta

naquela época o silêncio
que se fez não me doeu
como hoje dói lembrar aquilo
o som dos passos no barro
as crianças que se esconderam
em respeito
ou medo
do que é a ideia da morte

o silêncio dobrou e se dobrou
ao que desaparece para o depois

a morte e a vida conversam
ao menos em minha lembrança
é a ideia que faço daquele momento

a vida e a morte
qual é eterna?

tanto faz quando [se] é uma criança

 

Horácio Pontes

Constatação

quando tudo em mim falhar
não conseguirei mais ver
mas tudo continuará lá

quando tudo em mim morrer
não conseguirei mais ouvir
mas tudo ainda soará por lá

quando tudo em mim partir
não conseguirei mais me reconhecer
mas os rostos ainda permanecerão

serei o espelho
[finalmente]

sem a ilusão de que vivi

Horácio Pontes

104.

VÉSPERA DE NATAL

A morte seria uma aspiração para mim. Seria o fim realmente digno para quem não espera recompensas, para quem não espera o inferno, paraíso ou qualquer coisa semelhante. Espero a morte plácida e fria igual a todas as criaturas do mundo. Encontraria a felicidade? Eu, que por tantas vezes, entrava no primeiro botequim para encontrar a resposta no fundo do copo, ficava embevecido com a cor laranja que o céu me dava, para depois ter a coisa artificial que saem dos postes.

O natal está chegando, e dentro do botequim, percebia a silhueta das pessoas – sempre apressadas, é preciso relatar! – na rua, por vezes de um lado da rua, por vezes deste lado tão triste, debruçado na mesa, olhando o copo pela metade. Então me peguei atravessando a rua do pensamento, no natal, onde todos fingem amor e compreensão. Seria fácil atravessar a rua e dar de comer ao mendigo, que certamente sorriria e também agradeceria, convencido de como eu também estaria, de que o natal está chegando. Poderia encontrar até o antigo amor que tive, junto da sarjeta. O natal não tornaria isso tão casual, tão fantástico a ponto de nos fazer tremer e sentir o estômago revirar. Não, não seria igual a atravessar a rua com o objetivo pronto, posto, com a desculpa da data esfarrapada, igual a tantos encontros marcados nas agendas ou nos celulares.

Agora me encontro parado, sonhando dentro do copo.Imaginando Jesus admirando os velhos jargões da esperança e da bondade forçada, talvez papeando com um mendigo esfomeado ou tomando qualquer líquido com álcool como forma de anestésico, da sinestesia absoluta de nossas mentes e de nossas vidas. Sim, em minha ilusão eu teria atravessado a rua e dado algo de comer a algum miserável. Sim, deus estaria lá, finalmente estaria lá em meu caminho. Saberíamos a morada um do outro, cada um em sua couraça mentida, reproduzindo em vômitos as nossas verdades, abrindo a janela em momentos de tristeza, no natal, procurando sentido para alguma coisa, procurando o encontro casual no botequim, no puteiro ou dentro de uma casa de concertos.

Exceto no natal, sempre andei pelas ruas sem procurar pordeus, mas acho que isso é só uma maneira de me enganar. O silêncio é tão grande em meio a tanto barulho, a pausa é estilhaçada, e as flores das floriculturas murcham em uma alegria quase triste igual a um gato se escondendo da chuva. E foi numa rosa que em certa ocasião eu vi deus. Ela foi sacrificada igual a Jesus na cruz. A mortalha que nunca existiu, andava com ela para ir ao trabalho, para entrar em casa. Quantos de nós já não nos sentimos Jesus Cristo na cruz? Quantos de nós, em nossos mundinhos tão pequenos, já não nos sentimos os mais injustiçados do universo inteiro? Questões de grandeza são insignificantes quando mudamos de um corpo para o outro. Questões de grandeza são insignificantes quando atravessamos a rua – realidade ou ilusão não importam nesse momento! – e damos de comer a alguém.

Seria tudo igual ao episódio da rosa que pensei ser deus, seu desenho que recortava meu coração em berros dados dentro de uma garrafa, o relâmpago que corta a carne e sentimos na mão sua natureza áspera. Todos sorriem no natal, todos riem soberbamente, encontrando todos numa mesa farta de comida. E lá está a rosa cortada, num ciclo simples, que seria digno de grandes livros, mas quem quer perder tempo com isso? Quem deseja atravessar a rua e sair de suas rotinas? Quem deseja atravessar a rua e meter a mão na sujeira? A vida é uma travessia em dezembro, ao beber o anestésico e ter na palma da mão a surpresa de polichinelo, o medo de ter a verdade marcada na mão para sempre, de ver que a roldana do amor é um espelho que reflete uma flor, com a despedida e a passagem de ônibus para lugar nenhum.

A frase feita vem no momento apropriado, mas tirando o natal, fica difícil concluir quando é o momento certo para quebrar a máquina e se debruçar na mesa de um botequim vagabundo e imaginar Vivien à beira da árvore socorrendo Merlin. Afinal, o que faz sentido? Atravessar a rua dentro de nossas realidades ou apenas no pensamento? A compensação será a mesma. Um dia eu chegarei a um estágio superior, onde não precisarei mais questionar a falsidade prontificada do natal, onde não precisarei mais prestigiar tal data, entre o peru de natal e o doce, onde a vida de Jesus foi contada. Por que discordar da máquina?

Roberto Lorembrant
Do livro O Girassol Mecânico

Imagem

você tenta decifrar o
que não existe
tu de um lado
eu do outro
o reflexo de uma
vida morta

a imagem que não existe
de uma lembrança feliz
provando que de fato
não existe porque os
sonhos surgem da urgência
os feitos surgem da necessidade
que viajam a pele

a única memória é o olho
o olho que me alcançou
numa imagem
numa coisa qualquer
e que não existe e
que não existirá

tu de um lado
eu do outro
nesse poema morto
e sem data precisa

Horácio Pontes

Palavra escrita na árvore

a palavra criada é feita para morrer
morrerá sem dúvida em algum momento
igual a tudo
igual a todos

a palavra criada que se esconde
para sua morte
nas salas vazias
da mente
cheia de ratos
esperando que a porta abra

e na amplidão do tempo e do
espaço
a palavra se escora no tempo
raspagem que apaga
o que sabíamos
a leitura esfarelada
do que somos

a palavra escrita na árvore
que o tempo trata de apagar
com seus olhos cegos
seu garrancho que um dia
preencheu estrelas inteiras
e que se inclinou sobre a
vida perdida e cansada
a vida
essa velha surda
essa vadia que apita
o peito
no varar do sol
no varar da chuva
no varar da lua
no varar da neblina

pouco importa
igual a tudo
igual a todos
pouco importa

Horácio Pontes

Nihil [19]

você chegou até aqui
nós chegamos a esse
relato vertical
sim
vertical
porque vivemos num engodo
e lançamos nossas âncoras
em mares que não têm fundo
e que nem precisariam ter
nossos barcos fantasmas
que são os pensamentos
os sentimentos
loucos de tristeza
loucos de questionamentos
a âncora que corta
a pele
a nossa pele incauta

somos um monte de retalhos
de uma vida abundante
não para você
não para mim
mas para o outros

a flor que cresce para outros

as lágrimas que se perdem
em meio a chuva
a borracha usada com desespero
para apagar o erro

choramos
sangramos
e fica um registro
mal apagado do que
somos realmente
sangue e suor
na pele

a sede que cresce para os outros
de um começo que
não será para você
não será para mim
mas será para o outros
porque a verdade é que não
há recomeço
porque recomeços são mentiras
que inventamos para não
tremermos ao primeiro vento

e todos caminham para o
não-sentimento
porque nos tornamos
ventanias furiosas
rasgando as folhas
e as nuvens
somos orações
clamando por deus
preparando a guerra
em seu nome
seu desastre
sua trilha de fogo
sangue e lama
sua decomposição

e ao fim dessa verticalização
poremos fim ao nosso luto
de estarmos mortos
e substituiremos nossas lágrimas
nossas tristezas
e nossas dúvidas
por remédios
por vinganças
por sirenes que correrão
pelas ruas até que chegue em
você
em mim
nos outros

e nos televisores
celulares
em qualquer tela
redemoinhos de alegria
serão vendidos como cura
mas que não passam de mais
veneno
a cura da anticura
ou anticura da cura
o veneno enviesado
de intensa tristeza
numa alegria falsa

a flor que cresce para outros
para que chupemos sua sombra
até o céu da boca
cheia de gozo
felicidade falsa
e por fim a lágrima
e lançaremos nossa mão
ao papel
onde quer que estejamos
a mão do céu ao inferno do papel
os olhos do inferno do papel
até a nuvem do céu

nossa flor que cresce para os outros

e criaremos nossos heróis de açúcar
que se dissolverão na primeira
chuva
e a morte será certa
porque é a única coisa
realmente eterna

e eles aproveitarão a vida
com os hábitos que lhe
foram ensinados como felicidade
o consumismo
as viagens na primeira classe
e até os amantes que nunca se viram

gritaremos para as estrelas
choraremos para o papel
e se não fôssemos tão covardes
não naufragaríamos sobre nossos
próprios porquês
sentimentos e dúvidas
nossas abstrações que não servem
de absolutamente porra nenhuma
porque somos forçados a pensar assim
e termos que fingir a felicidade para
o televisor
o celular
o homem
a mulher
os filhos
e aqueles que se jogam contra isso
são massacrados
igual eu faço
igual você faz agora
se ainda estiver aqui

e temos medo
temos muito medo
do que somos e do que
poderemos ser
e porque não acreditamos mais
nos apegamos a qualquer
coisa para não sermos mais
aquilo que rechaçamos

eu vejo tudo
você vê tudo
eles veem tudo
mas eu ainda amo
você pode amar
eles não amam nada
porque somos
contra o sistema que
existe e que mata

e quando pensamos
os princípios são questionados

nossa flor que cresce para os outros

o extermínio da tristeza
impossível

o extermínio do amor
impossível

o extermínio da memória
impossível

o extermínio da paixão
impossível

o extermínio do futuro
impossível

o extermínio do que nos transformamos
impossível

o extermínio que em si não serve pra
merda nenhuma
mas que nos fará revolucionar
o pensamento para que mais
tarde alguma merda tome seu lugar
tristezas mais coloridas
dores mais coloridas
que serão amenizadas
com outros remédios coloridos
com artes mais coloridas
e todas as suas bandeiras
que escolheremos para seguir

e o que é a loucura senão
a sabedoria?
mas o que é sabedoria
senão sua consciência
de não ser nada?
e o que é sabedoria?
eu
você
eles
todos não passam de idiotas
que não são nada
diante esse sono imundo
com que somos cobertos
diariamente
do sono que tiram de você
quando o amor dói
quando a paixão queima
quando a tristeza divide
quando a dúvida destrói

e somos como nossas orações
NADA

e somos como nossas esperanças
NADA

e somos como nossos pais
NADA

e somos como as músicas que ouvimos
NADA

e somos como nossos poemas que lemos
NADA

e somos como deus escreveu nos ditos
NADA

e somos como nossos heróis
ABSOLUTAMENTE NADA

e nos agarramos em coisas tão pequenas
mas tão pequenas

chega de poesia
chega de música
chega de quadros
chega de esculturas
chega de amor
chega de paixão
chega de nacionalismos
chega de ódio
chega de perdões
chega dessa merda toda
chega de tudo
que é NADA

mas antes que plante minha flor
que não crescerá pra mim
e nem para você
o sistema fará com que
não percebamos que somos
nossos próprios verdugos
e não sei responder
do que necessitamos
além de conseguir lutar
contra toda as flores
os pensamentos
os sentimentos
que estejam além
de nosso entendimento

porque os mais fortes
são aqueles que não são
igual a mim
igual a você
mas os outros que arrancam
suas farpas da pele
dentro da cegueira
frenética da existência
com as mãos machucadas
mas a pele dentro
de um termo aceitável

a flor que cresce para outros
dentro de seus tempos

Horácio Pontes

Amor

o amor
do mesmo jeito que a morte
pressupõe um vago esquecimento
e depois dos tempos
– e não importam quais sejam –
tu
animal acuado
se aprisionará em seu muro
de pau a pique
à espera eterna
de seu vago esquecimento

Horácio Pontes

Poema sem nome [110]

criar a vida
escrever a morte
o poema
sua palavra
que voa e desaparece
a lágrima que vem ou não
seu rio
sua margem
tanto de vida
quanto de morte
o olho
a imagem do que é oco
tanto de vida
quanto de morte

a vida
e a morte
do nada

Horácio Pontes