Dor de atráves

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão
em mensagens
e-mails
e bilhetes que amassaremos e
que jogaremos em qualquer lugar
e você que amou desde a primeira
mensagem
sua primeira obra de arte
seu livro
sua música
sua pintura
sua dança
e que nunca soube
de fato seu nome
você sempre correu
de volta pra pegar o bilhete
amassado
e não sabia que escrevia
apenas sobre si mesmo
apenas sobre si mesma

e na denúncia precisamos
nos proteger de nós mesmos
e daquilo que não entendemos
e surgirá disso o corte
que deixará os olhos a ermo
registrando mais uma vez
e sempre mais uma vez
a dor e a solidão
de escrever e não ter a resposta
desnudada

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão

Horácio Pontes

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Acolha

acolha-me
por favor
você
a menina que ficou
para trás
olhos de firmamento
onde raiam girassóis

você
mulher de olhar acalmado
ouvidos atentos
onde não cabem
mais as canções

acolha-me
para acordar
diariamente
da solidão

Horácio Pontes

Poema sem nome [113]

entre a tormenta e os muros
que construí para evitar
qualquer coisa
coloquei você ali
do amor desesperado
feito de palavras
que seduzem a razão
e aliciam os olhos
em busca do toque
dos livros que coloquei na estante
juntos
unidos
em busca da simbiose
que não tivemos
para que se amem
e se atraquem desesperadamente
de uma maneira que nunca
consegui

Horácio Pontes

Olhos

nossos olhos
nossos olhos
mexidos por dentro da boca
palavra que não sai
mas que nos damos ao pensamento

é você que me consome

sou seu escravo de olhos furados
nossos olhos
nossos olhos
nossa quimera arrasada
apodrecida no meio do mato

é você que me consome

houve o golpe
houve a cegueira
nossos olhos
nossos olhos
nossos planos abortados

“amanhã será melhor”
diremos em grito baixo
será nosso despertador

mostrarão nossas esperanças
arrasadas na janela de
nossos olhos
nossos olhos

Horácio Pontes


Nihil [13]

não há palavra que se mantenha
sem que apareça
o cego de sentimentos
com seus olhos que não
encaram
com seus fantasmas
sussurrando o rompimento
a tragédia
a amenização do cotidiano
sem vergonha
sem luz
como passagem de nossa
vida desgraçada e sem graça
igual a quem crê numa cura
qualquer
vinda de algo divino
igual a deus
mas no entanto
não é mais que um barulho
do sinal negativo
a mão que bate na mesa
música atonal
ouvida na hora da morte
o tempo da não-dança

e a memória dessa cena
ficará aos que presenciaram
seu ineditismo que não é tão
inédito assim
porque repete diariamente
para inéditas ideias
inéditas pessoas
que nunca passaram
por uma transformação
tão árida
tão perene
quanto ao vacilo
dos homens
da vida
de tudo

a música do cegos
de sentimento é assim
atonal
silenciosa dentro da mente
bajula seu criador
para porra nenhuma
dentro de seus olhos
inglórios
na qual se refaz
a estranheza vil
de haver não-haver
sentimento

Horácio Pontes

 

Olhos

a palavra que não vira gesto
que fica presa na boca e nos olhos
e dos olhos que nascem a tristeza
que captamos na escrita
a escrita que faz nascer o
amor como forma de rótulo
de algo que destrói com suas
vertes corrosivas
a nossa consagração do gesto
do amor que fica preso à boca
e que vira uma relíquia do olho

Horácio Pontes

 

Frêmito

do corpo que se desmancha
nas palavras
e que queremos
único corpo palpável
na escuridão do dia

das palavras que daqui
são como beijos
a língua que refaz o
redemoinho no céu
de nossas bocas

o tempo sofre a parada
no instante em que a pele
arde
e o olho exaspera
a carne

Horácio Pontes

 

Poema sem nome [80]

você que me explicou do tecido
com cheiro de azul
Branca
mergulhada em sua nuvem
de aquarela
em que brincamos
sorrimos e passeamos
pouco se importando se eu
sabia andar numa nuvem assim
porque nessa aquarela só importava
o ser feliz
mesmo que breve
das cores alucinadas
de seus olhos com os
rasgos de lua
acalentando em mim
a palavra que sou

Horácio Pontes

 

Esmagamento

preocupar-se sobre o que
outro poderá
dizer de você
te fará menor
porque só o ato de
pensar já nos encolhe
para tudo que acreditamos
criando outros pensamentos
de igual equivalência

[somos esmagados por pensar
porque pensar é estar doente
dos olhos]

as coisas que expomos
será que realmente são
aquilo tudo?

é difícil crer que as coisas
sejam tão certas
as pessoas com
suas certezas
incontestáveis
e por isso eu valorizo
tanto o silêncio
seu poder
a glória com que
observo seu bater
de vento

e por se preocuparem tanto
as pessoas falam alto
gritam
riem como se quisessem
a visão de outros
mostrando igual um
pavão
a diligente covardia
cheia de coragem de mostrar
aquilo que nem sabem o que
são

seja lá o que for
qualquer merda
e seremos esmagados
por pensar
porque pensar
é estar doente não
apenas dos olhos
mas da vida

Horácio Pontes

 

Fechar de olhos

quero fechar os olhos
sonhar realidades
dormir longamente
como os ursos
que não sonham
à beira de seus medos

quero fechar os olhos
e buscar a forma perfeita
das sombras
da visão deturpada
dos doidos malucos
com suas grades

quero fechar os olhos
e acordar em lugar
nenhum
sem tempo
sem treva
como a rua que
termina num muro
para eu poder escrever
nele
a morte de qualquer
coisa
de deus

Horácio Pontes

 

Partida de através

escondemo-nos na noite
somos repetição de gestos
entregamo-nos aos movimentos
repetidos
treva de ignorância repetida
que insiste no corpo
na mão
NOS OLHOS

é golpe salino
a desistência
faz chover

boicotemo-nos
até não conseguirmos
mais vencer

evitaremos [tudo]
pediremos [pouco]
e antes de partir
nos veremos
e pediremos dentro
de nós para nos deixarmos
um com o outro

Horácio Pontes