Poema sem nome [121]

e para que serve o amor?
todos o veneram inerte
e quando pensamos tocá-lo
e aparece a primeira rachadura
nessa pedra gigante
vem a pergunta:
de que serve o amor
se não o possuímos?

e teremos mais uma coisa
uma coisa qualquer
para que alguém consiga
usar para ganhar seus créditos
com seu peso
sua forma
e seu objetivo

e capitalizaremos o amor
mesmo que isso não envolva
valores de fato
o amor será um jogo
em que a inocência não
fará mais parte
porque a distância do que
pode ser amor
e do que pode ser amor

é a mesma pergunta
o mesmo questionamento
do que para que serve

e para que serve o amor?
simplesmente não serve
para quem não sabe

e é só isso

Horácio Pontes

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Poema sem nome [120]

a vida está morta
e a culpa não é só minha
porque dentro de mim
da melhor forma que pude
tentei mantê-la intacta
longe da realidade
mesmo que uma seja a outra
e a outra seja uma

o que importa no fim?
nada
e não adianta
porque o desespero dessa
causa
– que é viver –
imita o impossível
imita o incerto que é
ser um ser
com sentimentos
e com pensamentos
que caem em contradição
quando a boca abre e produz
a voz que nos calará

nós mesmos
NÓS MESMOS

e extinguiremos aquilo
que nunca existiu de fato
a estrada já esburacada
que é a vida morta

morta vida
[eu]

Horácio Pontes

Poema sem nome [119]

a loucura
a tristeza
a superação
coisas simples
que são usadas
para definir alguma
grandeza que temos

esses loucos
esses tristes
esses seres que
superaram algo
nas porradas dos dias
são árvores que não dão
frutos

são suas frases sem sentido
que semeiam o vírus
o sentimento do abstrato
a loucura da grandeza
a tristeza do belo
a casa sem janelas
em que buscamos a fuga

a loucura da razão é tão
bela quanto a razão
da loucura?

não importa
e não importa
porque em qualquer
um desses cenários
remaremos contra o
tempo que resta

sua obscenidade
da visão
da tristeza
da alegria
da surdez

a superação de um
deus que não existe

[ímpio]

Horácio Pontes

Poema sem nome [118]

o amor é igual a deus
talvez exista
e por cada vez saber mais
que não sei nada
renuncio a qualquer bandeira
que traga uma definição formal
de sentimentos
e pedaços de nós se
desprendem para
os olhos dos outros
para as charnecas
do impossível

mas o amor passa a existir
quando lembramos os que
amamos
mas o que é amor
senão uma condição
uma ilha apenas sua?
o tempo que habitua
um padrão
uma palavra no dicionário
que define friamente um sentimento
sem se dar por isso

é como a literatura define
o que não pode ser definido
porque a palavra não alcança
a realidade de nossas ilhas
e de nossos divinos pareceres
sobre o nada

o amor
igual a deus
não precisa de tempo
para poder existir na ideia
do que supomos ter
no sentimento que ousamos
um dia catalogar
e o homem desafia esse
limite numa ânsia de pensar
de ter alma
e não apenas um
sentimento

Horácio Pontes

Poema sem nome [117]

sete bilhões e mais
não sei quantos
e apenas uma pequena
legião de sombras
ditam as palavras
que costumamos
vomitar a cada
alerta de ataque

o resto caminha morto
inclusive os vivos
que esqueceram de
nascer

Horácio Pontes

Poema sem nome [116]

as palavras que te levarão
para algum tempo longe daqui
porque a poesia é arquitetada
para fugas de curto prazo
e quando não formos mais
o que sabemos ser
passaremos sozinhos
por essas palavras
registradas
e sua recitação
será confundida com um
rangido de porta
e não habitará mais
do que sua mente sem paredes
sua silábica perdida na gagueira

e na morte reencontraremos
o tempo fugaz
que é devorado pela solidão
do encontro
a palavra confundida
com seu próprio tempo

a densidade de não ser
[nada]

Horácio Pontes

Poema sem nome [114]

o tempo morre
feito a lágrima em
meio a uma chuva
repentina

a lágrima que bate no tecido
mas não se dissolve de imediato
pois ali está o tempo preso
morto
na permanência do iminente
que carrega o tempo infinito
que toma o corpo
e a lembrança
animal que nos persegue
e não reconhece o erro
que fode a memória
a chuva que se faz lembrar
com mais intensidade
feito a lágrima em
meio a uma chuva
repentina

para ti
para mim
para todos

a memória ameaça
chover

Horácio Pontes

Poema sem nome [113]

entre a tormenta e os muros
que construí para evitar
qualquer coisa
coloquei você ali
do amor desesperado
feito de palavras
que seduzem a razão
e aliciam os olhos
em busca do toque
dos livros que coloquei na estante
juntos
unidos
em busca da simbiose
que não tivemos
para que se amem
e se atraquem desesperadamente
de uma maneira que nunca
consegui

Horácio Pontes

Poema sem nome [112]

alguma hora se torna amargo
amor
poesia
amigos
tudo

e faltaremos a isso
faltaremos ao compromisso
marcado com antecedência
virá a desculpa emaranhada
com areia dentro dos sapatos

tudo que questionamos
alguma hora se torna amargo
amor
poesia
amigos
tudo

e faltaremos a isso
faltaremos ao compromisso
com os olhos cheios
de oceanos minúsculos
de tudo que não fomos

Horácio Pontes

Poema sem nome [109]

a solidão que é monitorada
pelas câmeras
ou debilmente pelos nossos
olhos
o choro que vem guardado
a fodidos solavancos dentro
da gente
nossa repartição
do sentimento

e agora cumprimos os papéis
que nos foram dados
eles nos matam
mas não foram dados para esse fim
mas apenas para o seguimento
para o definhamento lento
e preciso do que nos ultrapassa
porque não seguir o roteiro
significa morrer mais cedo
queimado ou congelado
a conjugação não importa
porque de uma maneira ou de outra
o futuro estaria em perigo

o futuro da solidão
estaria em perigo
tudo estaria em perigo
se conjugarmos
o afastamento
do cumprimento de nossos
papéis tão fúteis
e vazios

faltam nomes
falta vida
aos nomes que faltam
e desse lado da festa
não há novidades
e o futuro sempre está
sob o risco de não ser
o não-papel de cumprir
porque é mais fácil seguir
a cabeça líder do gado humano
é fácil falar a língua que todos
falam e reproduzem sem questionar
e a solidão é monitorada
pelas câmeras
e também debilmente pelos nossos
olhos

e vem o choro guardado
a fodidos solavancos de dentro
da gente
nossa repartição
do sentimento
do homem que grita
com sua filha em outro
idioma
mas o mesmo idioma
a fala dentro da fala
a palavra dentro da palavra
mas que não é entendida
a discrepância de gerações
de pais e filhos
e eu que nunca tive pai
senão um provedor
segundo suas próprias palavras
consigo até sorrir com ironia
quando lembro disso porque
a maioria das pessoas têm
voos de galinha
estreitando o passo
seu voo chocho
que espanta a ideia
o respeito
e traz a solidão
para ser monitorada
por um guarda distraído

não se pode dominar o papel
de ir contra o papel
a palavra não tem suficiência
para facultar a própria saudade
e nem mesmo a solidão

a ternura desgovernada de sentir
a ternura desgovernada de sentir solidão
a câmera
o olho
o solavanco

[nossos papéis]

Horácio Pontes

Poema sem nome [108]

o lugar mais longe para onde viajei
foi dentro de mim mesmo
e estava tão perto
descalço
escrevendo qualquer coisa
em abas impessoais de trabalho
onde as pessoas rezam
e ditam passagens bíblicas
e eu perdido no meio do mundo
mais longínquo que é tão perto
voltando descalço e pensando
no final da fuga musical

odeiam-me por perguntar demais
por questionar demais os mortos
e seus desaparecidos na defumação
da vida
e sentenciam com suas verdades
os adjetivos clássicos daqueles que
não aceitam esse mundo sumido

DEVE TER FEITO MUITA MERDA NA VIDA
ESSE É O FIM DE QUEM NÃO TEM DEUS NO CORAÇÃO
DEVIA TER MUITAS DÍVIDAS
NÃO SABE SE ADAPTAR
NINGUÉM QUER ANDAR COM PESSOAS ASSIM

e certamente me odiaram
por outros motivos
do mesmo modo que odiaram
os grandes homens
as grandes mulheres
todos com seus papéis
adjetivados de maneira até
pior

[fugimos para a distância
tão perto de nós mesmos]

Horácio Pontes

 

Poema sem nome [107]

a fumaça que é amparada pela sombra
dança velada
dentro do silêncio
da sombra que omite
o ponto da divisão
do esfacelamento
que rodopiam as ideias
seus girassóis
que são inúteis aos olhos
ao amor
sombra e fumaça
fumaça e sombra
em comunhão
na escuridão de nós

Horácio Pontes