Dor de atráves

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão
em mensagens
e-mails
e bilhetes que amassaremos e
que jogaremos em qualquer lugar
e você que amou desde a primeira
mensagem
sua primeira obra de arte
seu livro
sua música
sua pintura
sua dança
e que nunca soube
de fato seu nome
você sempre correu
de volta pra pegar o bilhete
amassado
e não sabia que escrevia
apenas sobre si mesmo
apenas sobre si mesma

e na denúncia precisamos
nos proteger de nós mesmos
e daquilo que não entendemos
e surgirá disso o corte
que deixará os olhos a ermo
registrando mais uma vez
e sempre mais uma vez
a dor e a solidão
de escrever e não ter a resposta
desnudada

e denunciamos a dor
e denunciamos a solidão

Horácio Pontes

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Essência de através

I

eu sei que me boicoto
eu roubo minha essência
e destruo tudo que há de
humano dentro de mim
faço à revelia de todos
para criar algo que pode
ser o pior de mim
e ofereço a ti o passado
o pouco que posso ser
e aquilo que fingi ser
perante o espelho partido
porque espelhos partidos
são memórias vivas
que habitam as sarjetas
do tempo

e faço-me vítima de mim mesmo
não há gritos
não há choro
não há lágrimas
só há um disparo
de sono e sonho

essência roubada

II

eu inventei um mundo
para poder sobreviver
– sim
eu fiz isso
todos os fracos fazem isso –
e lá cresci
com memórias que não
foram minhas
engaiolado numa redoma de
plástico e metal
e componentes eletrônicos

e desse mundo havia alguma
música vinda do outro lado
tão temido
minha única conexão
entre as pequenas fissuras
em que resolvi relatar
verticalmente que não há
insensatez que descreva o que vivi

um mundo em que só eu vivi
e que não sei sair
minha gaiola vazia
minha linguagem inútil
e desesperada dos tristes
enclausurados de solidão

essência partida

Horácio Pontes

Não-nada

Para E.

sempre penso nas pessoas
que fingem a não-solidão
mesmo que na companhia
de alguém ou de si mesmos
da mente ou do pensamento
que entram em transe
nas palavras jorradas sem edição
nas palavras que tentam fazer a cura
mas que não é cura
porque palavra não é cura
de seus olhos
de sua visão que julga
ou que acha saber o que se passa a outrem
vomitados talvez de uma solidão congênita
sua mania de radicalidade pela minha
não-resposta
pela minha solidão
que tenta ser invadida igual uma casa
em tempos de guerra
[palavras são guerras]

e de todos que arrancaram o peito
à espera do infinito
para eliminar suas dores
seus amores fodidos
suas cicatrizes que insistimos
em colocar na pele do outro
coisas essas de quem tem sentimentos
é compreensível porque
sempre penso nas pessoas
que fingem a não-solidão
e radicalizam suas palavras
nas palavras ou não-palavras

porque palavras são guerras
e é só isso

Horácio Pontes

Poema sem nome [109]

a solidão que é monitorada
pelas câmeras
ou debilmente pelos nossos
olhos
o choro que vem guardado
a fodidos solavancos dentro
da gente
nossa repartição
do sentimento

e agora cumprimos os papéis
que nos foram dados
eles nos matam
mas não foram dados para esse fim
mas apenas para o seguimento
para o definhamento lento
e preciso do que nos ultrapassa
porque não seguir o roteiro
significa morrer mais cedo
queimado ou congelado
a conjugação não importa
porque de uma maneira ou de outra
o futuro estaria em perigo

o futuro da solidão
estaria em perigo
tudo estaria em perigo
se conjugarmos
o afastamento
do cumprimento de nossos
papéis tão fúteis
e vazios

faltam nomes
falta vida
aos nomes que faltam
e desse lado da festa
não há novidades
e o futuro sempre está
sob o risco de não ser
o não-papel de cumprir
porque é mais fácil seguir
a cabeça líder do gado humano
é fácil falar a língua que todos
falam e reproduzem sem questionar
e a solidão é monitorada
pelas câmeras
e também debilmente pelos nossos
olhos

e vem o choro guardado
a fodidos solavancos de dentro
da gente
nossa repartição
do sentimento
do homem que grita
com sua filha em outro
idioma
mas o mesmo idioma
a fala dentro da fala
a palavra dentro da palavra
mas que não é entendida
a discrepância de gerações
de pais e filhos
e eu que nunca tive pai
senão um provedor
segundo suas próprias palavras
consigo até sorrir com ironia
quando lembro disso porque
a maioria das pessoas têm
voos de galinha
estreitando o passo
seu voo chocho
que espanta a ideia
o respeito
e traz a solidão
para ser monitorada
por um guarda distraído

não se pode dominar o papel
de ir contra o papel
a palavra não tem suficiência
para facultar a própria saudade
e nem mesmo a solidão

a ternura desgovernada de sentir
a ternura desgovernada de sentir solidão
a câmera
o olho
o solavanco

[nossos papéis]

Horácio Pontes

Escombros [3]

sim
existem coisas
muito piores que a solidão
é a solidão em meio à multidão
que nos custam anos de análise
e maltratam a cada data festiva
a cada data de celebração de união
e não percebemos isso cedo
só quando já aconteceu e não dá mais
tempo
tempo de resolver
a solidão do que é tarde demais
sim

Horácio Pontes

 

Não-poema [5]

das canções que os incompreendidos
farão aos solitários e insatisfeitos
seus irmãos
o ódio aos humanos que oprimem
a voz
essa mesma voz que insiste
em reaparecer
cantam contra a opressão de viver
contra a opressão de seguir as regras
sem imaginação e sem cor

o homem triste
a mulher tétrica
o fracasso pondo mesa
em meio às delicadezas
das coisas para o qual
somos todos cegos

desafiar a vida
é uma vitória ilusória
porque todos dizem que são vitórias
mas não acho que seja
as coisas apenas são
e não essa sanha por qualquer coisa

Horácio Pontes

 

Pequena biografia

O que poderia ser pior que a solidão forçada e não-voluntária? É uma época agora relativamente distante, superada entre bebedeiras, vômitos, golpes fodidos de realidade, entre uma música e outra no meio de tanta imundice. A conformação também veio forçada. Nasceu a tristeza (que não chamava de tristeza até a hora pretendida) em meio aos tropeços, enfrentando os ventos que traziam as palavras embaralhadas, que sem pena me castigou e me trouxe a ânsia de vômito, como se fosse virar do avesso para um desastre sempre horripilante para meus sentimentos pouco lapidados. Passei mal com tanta tristeza, com qualquer coisa que amei e tive que ser obrigado a deixar para trás e superar como se finalmente soubesse de tudo.

Quantos de nós não sentimos o tempo abrandar sempre no pior momento para então termos o choque indescritível da realidade, do sentimento de que nada se pode fazer? Quantas vezes eu procurei abrigo nas gramíneas dos parques, virado como um gato de barriga pra cima, olhando o céu, para poder continuar de algum modo? Fui mal pensado, errei o caminho da paz, errei o caminho da alegria e fingi ter acertado o caminho durante muito tempo, cometi confusões, misturei a raiva e o ódio com a pureza do outro lado da estrada. Fui – e ainda sou! – um abobalhado.

Ninguém, além de nós, se lembra da marcação do tempo na descida do Sol. Ninguém, além de nós, se lembra da algazarra que a solidão forçada nos faz a cada precipitação de água no céu. Ninguém, além de nós, sabe a verdadeira meta de nós mesmos e de como ela se esfarela a cada derrota, a cada desistência após uma tentativa com o sabor de eu tentei, tentei mesmo. Eu deveria ter sido verdadeiro comigo mesmo, de que alguma coisa no meio de tantas outras não se encaixava. Será que falhei? Será que deveria ter sido assim? Poderia ter feito diferente? Por isso que o berro fodido do mundo me dói até os ossos, até a primária sensitividade da existência.

Sou egoísta ao escrever, falo de mim. Porém, sei que muitos outros pensam as coisas que ameacei pensar. Quantas vezes, debaixo de árvores ocas, esperando o sinal abrir, não tivemos pensamentos secos que nem a fumaça do ônibus, todos interligados e mortos? O castigo definitivamente não vem ao acaso, é uma dialética seca que temos que desvendar e se possível vencer. Talvez fosse inteligente ficar na estrada mais bonitinha e movimentada, em grupos, para não nos perdermos. Nada poderia parecer mais belo e simples. Por que não fiz isso? Se eu ao menos pudesse arrancar a tristeza de mim, se eu pudesse superar a hierarquia da solidão, dormir, comer sem a pressa cotidiana e de vez em quando poder fumar um cigarro sem a confirmação da realidade no final dele. A solidão tentou me anular durante anos, e conseguiu, não tinha armas, estava descalço.

Lembro-me de um sonho que tive. Imaginei a primeira mulher que amei ao pé de uma árvore gigante e eu a via de longe. Ela não estava morta. Sorria perfeitamente de acordo com a estrada bonitinha e movimentada. Levava lentamente a mão aos cabelos e olhava para o chão, pedindo com aquele gesto que eu aceitasse a solidão também com um sorriso cheio de lágrimas, sem arfar o cansaço infinito de cada solapada de final de tarde enquanto certamente daria de ombros para toda a estrada e faria alguma coisa numa folha de caderno. Acordei chorando, com febre. Seria facilmente desvendado naquela ocasião se não estivesse sozinho para meu desembarque na vida.

Vale aproveitar a pouca calma interior que seres como nós temos? Talvez. Em meu sonho deveria ter aproveitado a visão dela, apenas me perceber olhando a mulher que perdi para a vida anos atrás, de poder perceber as labaredas laranjas guiando o meu encontro casual com uma forma no céu, ou nela, com as mãos nos cabelos. Penso em meu sentimento, perto e longe de mim, em minha covardia para encontrar um porto onde se possa dormir sem a interrupção, onde poderei aquela música que sempre me acompanhou nessas horas, essa transposição da solidão para algo cauterizado no coração. Penso sobre isso, canto sua melodia e o desenho na areia da praia. A solidão e a tristeza se juntam e travam comigo uma amizade e sinto que isso jamais se perderá. A música, perto de seu final é quando sinto a rebelião maviosa. É como nos defendemos, à nossa maneira ridícula e infiel, a transpor uma batalha perdida, UMA GUERRA PERDIDA. A ordem a tentar dar o sentido, ao movimento minimalista da música querendo justificar a aproximação ao porto, a sua melodia fina e quebrante. É o meu encontro com a solidão forçada e não-voluntária. Quanta insensatez.

Horácio Pontes

 

Poema sem nome [96]

é hora de levantar
Branca
porque raros são os dias em que
a cidade nos espera sem suas
punhaladas
suas músicas que insistem uma memória
triste das coisas

atrás de tudo isso os
pesadelos e sonhos
iguais flores que mais
tarde
– de alguma maneira –
serão pisadas

nossas vidas são de silêncio
nossas vidas vociferam dentro
de nossos corpos tão cansados
das dores que não deveriam ser
nossas
mas próprias apenas de nosso
pensamento

e a solidão corrói
que não sabemos mais o que
somos ou o que poderíamos
ser
de um noturno
de uma música sem nome

da luz que sentimos no rosto
a luz elétrica que amarela as paredes
e que desconhece a imagem de pessoas
que fazemos nelas
os olhos mudam a solidão
sim
definitivamente mudam
a solidão que se exprime numa quietude
quase visceral
e que é também desaparecimento
de sanidade
de saudade inexplicável

não consigo explicar o sentimento
e nem a serenidade violenta da
saudade

a dor deveria ser anterior
ao ato de existir

a dor talvez seja linear
com seus eternos subjacentes
das condições
das permanências do pensamento
das confusões dos dias
das calçadas rachadas onde a grama insiste

tudo tão frágil
e solitários nas narrativas de nós mesmos
no agarrar da memória de ti
Branca
e que nunca foi diferente

Horácio Pontes

 

Olhos de menina azul

lembro-me do primário na escola
do coração repleto de dúvidas
e alguma tristeza
e lembro de uma menina
olhando para mim
memória viva de seu rosto
eu sorri pra ela inocentemente
e fui xingado por ela gratuitamente de
bicha que ouve música clássica

fiquei naquela escola até o fim
e de tudo que lá aconteceu
essa é a única coisa que lembro
vivamente

e soube recentemente de sua morte
de sua queda que ainda guarda
aquele episódio
a pequena criança de voz chata
que traz ao fim sua pequena canção
porque estive diante da voz que ecoou
no fundo de minhas noites

reconheço secamente que aquele xingamento
fez nascer em mim a profundidade em que mais
tarde me afogaria

a de que estamos sozinhos no mundo
com os olhos perdidos
ela
não eu

Horácio Pontes

 

Não-poema [2]

jogar-se na noite
de si mesmo
dentro da própria noite
não é mais escrever
mas sim avançar nas
coisas que não têm
condição de serem
aventadas
ditas
suspiradas

a solidão desse momento
é tão devastadora que nem
a palavra pode ser uma palavra

o não-poema é uma
convocação ao silêncio

Horácio Pontes

 

Poema sem nome [81]

nos televisores
nos celulares
nos computadores
vemos o amor impossível
acontecer
mas todos sofrem labaredas
de suas desgraçadas vidas

aqui na vida real
a vida age possivelmente
dentro das possibilidades
certas de
chuva
tragédias

entre a vida corrida
nas elegias de
metal e plástico
e na vida aqui fora
[e qual é verdadeira?]
os que enxergam deitam-se
ao lado de seus livros
debruçam-se em suas janelas
em busca de um chamamento

vasculhamos o impossível dentro
de uma chama de esperança
um diálogo inventado
[caso seja necessário]
das palavras que não podem
existir escapando de nossas
solidões tão compartilhadas

Horácio Pontes

 

Passo para o sonho

diariamente sinto a vida me
maltratar
de sentir minha sensibilidade
como uma folha ao prazer de
qualquer vento

vejo meus iguais
meus irmãos de terra
e sinto em seus rostos
a solidão realmente
compartilhada
como um sonar jogado
à sorte de uma resposta

olhos que não olham
ouvidos que não ouvem
um mundo que não é
mundo
de pessoas quem agem
profundamente em planos
rasos
da consciência sobreposta
e posta ao convencimento
do absurdo em que temos
que cruzar uns aos outros

eu
logo eu
que durante anos
senti o dedo apontado em minha cara
por sentir as coisas de maneira totalmente
diferente ou oposta a tudo que é dito como real

por que não se rebelar contra sua
própria consciência?

POR QUÊ?!

a empatia que sinto por eles
é tão profunda a ponto de querer
me isolar
sinto o que eles sentiriam ao
se conhecerem de verdade
sentindo em si mesmos
a tortura de tanta solidão
fingida de outra coisa
a fuga do convívio do que
é realmente difícil
e volto ao meu corpo
multidão de um só
fuga impossível ao
pé do crepúsculo
das ruas ermas em que
procuramos alguém em
alguma janela
[e estariam conectados
comigo de alguma maneira?]

a sensibilidade sem ter onde por
os pensamentos caóticos aos
cuidados da calçada que gasta
os sapatos
e vejo meus iguais
meus irmãos de terra
e sinto em seus rostos
a solidão realmente
compartilhada
como um sonar jogado
à sorte de uma resposta

a música que me acompanhou
por décadas
meu real companheiro de
tantas vozes
de tantos amores perdidos
de tanta humanidade
feita por pessoas que nem
talvez fossem tão grandiosas
de espírito

quisera eu poder rezar
quisera eu poder sorrir
mostrar gratidão para
a cegueira de não pensar
mas se não fosse por isso
eu não estaria aqui
amontoando tantas linhas
tantas palavras sem sentido
[mas que para mim tem]

outra vida?
não quero
e também não
quero ter esperança
nem num deus ou suas
possibilidades
prefiro enxergar o nada
e a opacidade em tons
mais precisos que todos
os outros

[isso é um passo
para o sonho]

Horácio Pontes