Constatação

a vida das pessoas
que se integram pouco
com seus reais sentimentos

será que o espírito é
realmente livre nessas horas?

a música aquém do instrumento
a razão aquém do ser
o impulso
a manifestação

e o resultado óbvio:
o arremate da vida

a luz que sobrevive
ao apagamento
sua imortalidade mortal

o belo que se perde
e pelo qual nos
apaixonamos

o que mais amamos

Horácio Pontes

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Lugar

existiu um lugar
que antes
estava ao alcance
da visão

era algo onde
os barcos aos poucos
iam sumindo

e suas chaminés
fincavam seu fumo
no ar e o sonho
era turvado por
essa imagem

a lua batida no oceano
era como um mármore
afiando a água

e deveria existir
do outro lado
esse lugar
ao alcance
de nós mesmos

um único ponto
onde diariamente
atracamos a vida
e só isso

Horácio Pontes

Estudo [1]

na ínfima ideia
o teu nome em brasa
e o inverno exala um
cheiro que beira ao ridículo
de suas flores ainda fechadas
onde a vida em essência
absurda a morte

a brasa onde
a morte intumesce

Horácio Pontes

Poema sem nome [120]

a vida está morta
e a culpa não é só minha
porque dentro de mim
da melhor forma que pude
tentei mantê-la intacta
longe da realidade
mesmo que uma seja a outra
e a outra seja uma

o que importa no fim?
nada
e não adianta
porque o desespero dessa
causa
– que é viver –
imita o impossível
imita o incerto que é
ser um ser
com sentimentos
e com pensamentos
que caem em contradição
quando a boca abre e produz
a voz que nos calará

nós mesmos
NÓS MESMOS

e extinguiremos aquilo
que nunca existiu de fato
a estrada já esburacada
que é a vida morta

morta vida
[eu]

Horácio Pontes

Memórias de através

o nascimento
a sobrevivência
e a morte

tudo soma-se a um monte
de memórias enterradas
em arquivos mortos
e seu destino se encerra
cumpre-se a vida
igual aos kamikazes
e seus poemas escritos
no improviso que a morte
faz ter
e deixamos de ser inocentes
temos maculada toda uma vida
para um certo questionamento
e ao jugo de questionamentos
em que a resposta simplesmente
não existe e mesmo sabendo disso
correremos atrás delas
como compete aos poetas
filósofos
e até alguns músicos

em vão

e nos submeteremos ao apreço da morte
mas a verdadeira revelia não é escrever na
horizontal mas sim se negar a dar o testemunho
disfarçar o cloreto que ameaça cair do olho

nascimento
sobrevivência
morte

a vida mistura essas merdas
e nos resta apesar de tudo
de sua dor
de seu abandono
de sua tortura
saber morrer com alguma humanidade

[dói]

14.

Depois de tantos anos acabamos aprendendo alguma coisa com a ausência. Aprendi a escrever menos, aprendi a prestar mais atenção na cartografia dos olhos. Os sinais que deixamos – com o tempo – pra lá e não sabemos mais como interpretar. Tudo é, depois de anos, um catálogo, uma mancha nessa cartografia. E caímos para cima, do teto que encaramos antes do sono, nas linhas que machucam a parede e sopram seus tempos para uma fuga. O sonho que durou 10 anos em alguns minutos, da última tragada denunciada na aquarela que paira no ar. Sim, a ausência pode ser traduzida em bilhões de esferas e idiomas e ainda assim quando bate aos olhos, consciente, guarda uma beleza que só pode ser extraída da própria vida que queima.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

Poema sem nome [117]

sete bilhões e mais
não sei quantos
e apenas uma pequena
legião de sombras
ditam as palavras
que costumamos
vomitar a cada
alerta de ataque

o resto caminha morto
inclusive os vivos
que esqueceram de
nascer

Horácio Pontes

Acontecimento

lembrei um acontecimento
quando era criança
eram crianças que pulavam numa
lagoa
com o sol fazendo o resto
dessa imagem campestre

do outro lado vinha o carro fúnebre
com seu morto
suas exéquias
sua procissão lenta

naquela época o silêncio
que se fez não me doeu
como hoje dói lembrar aquilo
o som dos passos no barro
as crianças que se esconderam
em respeito
ou medo
do que é a ideia da morte

o silêncio dobrou e se dobrou
ao que desaparece para o depois

a morte e a vida conversam
ao menos em minha lembrança
é a ideia que faço daquele momento

a vida e a morte
qual é eterna?

tanto faz quando [se] é uma criança

 

Horácio Pontes

55.

PENSAMENTOS PARA NÃO ESCREVER

Durante muito tempo tentei entender o processo da vida. Em essência não encontrei algo que fosse muito diferente dos outros animais. Alguns vivem inconscientes, como se nada soubessem, lançados estupidamente através das coisas e dos seres; outros percebem apenas pequenos intervalos, leves interlúdios, mas se divertem com isso; alguns vivem precariamente o mesmo percurso, porque questionam e não se limitam a aceitar o modo de vida que leva o primeiro exemplo que mencionei. A maioria não pensa além do que pode ver, alguns – arrisco-me a dizer – nem sabem que estão vivos. O cachorro se espoja na sombra e lá fica, o homem faz a mesma coisa com o pensamento, com a vida, com suas diversas complexidades. Ninguém faz muita coisa. O homem ama o sucesso, a glória, a imortalidade, mas não em campo abstrato. Querem participar daquilo no momento do ato. Não participar implica e mais uma letargia.

Sempre pensei que isso um dia pudesse se tornar mais frequente, tantas perguntas a respeito do homem que não enxerga, que é limítrofe porque lhe foi dada a consciência. Muitas vezes o resultado termina na religião, de Roma ao Tibete, repugno todas com a força de meu coração, pois todos dentro do absurdo, do dogma, tentam se libertar de nossa real e verdadeira condição: a de animais espojados na sombra. Todos nós, dentro da loucura, tentamos negar o que a vida escancaradamente nos mostra. Abaixamos a cabeça sem pensar no ato que isso implica, no anseio de não querer saber, do martírio e a mágoa que isso pode nos causar.

Dói pensar que quase todos sejam assim, mas não culpo os animais, culpo o homem, que tem a capacidade de atravessar o palco e falar alguma coisa, mas não fala nada. Apenas segue os da frente como um rebanho, apenas contentes pela suposta solenidade por que passam. Brincamos de existir, cachorros e homens, sem diferença aparente, ambos místicos da precisa hora, com o corpo e a dor, a presença fantástica do mistério da morte. Vazios, todos vazios.

Talvez o místico seja eu, por falar deles desse jeito pouco explicativo, de ser incapaz de dar a este texto as palavras mais claras. Aqui onde estou agora, no trabalho, sinto essas coisas de perto, como se fosse um pequeno pedaço da humanidade. Serei sempre assim, um empregado que traça na caneta jogada ao acaso todo um maldito universo, servo de minhas próprias sensações, egoísta e pouco funcional. Serei sempre um não sei o quê. Talvez meus gestos sejam como o espojo das maneiras que todos seguem até que a festa acabe. E lá estou eu, cumprindo porcamente o meu papel, no final da rua sem saída.

Roberto Lorembrant
Do livro O Girassol Mecânico

8.

O passado muda porque a memória muda, mas não se muda o sentimento ao lembrar naquele instante o corpo e as lágrimas e a espera de sua eterna repetição. O apagamento do passado, a mudança de perspectiva é que trazem essa mutação de não se alterar o sentimento. Muda-se a história, não o sentimento. E no meio disso podemos salvar algumas memórias do esquecimento para que o tempo não o deixe simplesmente morrer. O amor, o perdão, qualquer coisa que podemos adiar ao esquecer, porque a vitória é mais doce ao que nunca venceu e a compreensão da memória requer intenso esquecimento.

Roberto Lorembrant
Do livro Memórias de vidro

Imagem

você tenta decifrar o
que não existe
tu de um lado
eu do outro
o reflexo de uma
vida morta

a imagem que não existe
de uma lembrança feliz
provando que de fato
não existe porque os
sonhos surgem da urgência
os feitos surgem da necessidade
que viajam a pele

a única memória é o olho
o olho que me alcançou
numa imagem
numa coisa qualquer
e que não existe e
que não existirá

tu de um lado
eu do outro
nesse poema morto
e sem data precisa

Horácio Pontes

Palavra escrita na árvore

a palavra criada é feita para morrer
morrerá sem dúvida em algum momento
igual a tudo
igual a todos

a palavra criada que se esconde
para sua morte
nas salas vazias
da mente
cheia de ratos
esperando que a porta abra

e na amplidão do tempo e do
espaço
a palavra se escora no tempo
raspagem que apaga
o que sabíamos
a leitura esfarelada
do que somos

a palavra escrita na árvore
que o tempo trata de apagar
com seus olhos cegos
seu garrancho que um dia
preencheu estrelas inteiras
e que se inclinou sobre a
vida perdida e cansada
a vida
essa velha surda
essa vadia que apita
o peito
no varar do sol
no varar da chuva
no varar da lua
no varar da neblina

pouco importa
igual a tudo
igual a todos
pouco importa

Horácio Pontes